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Ar & CuraProibida a leitura a quem não andar espantado com a existência! |
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February 04 ResumindoVoltei à escrita. Depois de um período de improdutividade. Não sei o que tive. Preguiça de viver. E medo de perder. A morte da minha mãe foi mais que uma perda. Foi uma derrota pessoal. Ver fracassado o único objectivo que tinha: faze-la viver. Acreditei que a vida dela dependia do que fizesse por ela. Fiz o que pude. Fiz o que não podia. E no fim, o resultado foi o prognosticado. Contra os meus próprios prognósticos. Agora folheio o Manual de Medicina Interna com um certo desprezo. Destoa no meu armário dos livros. Mas não o vendo. Olhar para ele lembra-me a minha impotência. E quando me sinto capaz de tudo, preciso deste livro que me lembra o contrário. Dei o sofá onde vi morrer a minha mãe. Estava repleto de boas recordações de jantaradas e outras “tainadas” cuja lembrança me faz sofrer. Comecei o ano com uma ideia fantástica: levar o meu pai para o ginásio. Mas foi uma decisão egoísta. Andava chateada com ele. O meu irmão ligava-me de Lisboa a dizer que ele estava todo empenado e eu, temendo que ele me ficasse numa cama inválido, mais ano menos anos, pensei que o devia por a perder peso. São 110 quilos. Mas o professor dele, o Francisco, garante que em três meses ele terá já menos 10. A ver vamos. Motivação não lhe falta. Vai todos os dias. Faz o plano de máquinas, tem aulas de natação e finaliza as manhãs com o SPA. Uma maravilha que custa 55 euros por mês, com desconto por a filha ser uma jornalista sindicalizada. Deixei de ter Internet em casa. Agora abanco em cafés com wireless que é mais económico. Comprei uma mesa e duas cadeiras para poder jantar fora da cama, mas a minha nova casa está longe de estar mais que habitável. Quando estiver, tenho de arranjar maneira de trazer cá a minha avó Rita. Estou com ela pelo menos três vezes por semana. Sinto-me bem com ela. Lembra-me como seria a minha mãe se tivesse um dia chegado aos 81 anos. Tenho saudades da minha avó Augusta. Quem me dera que ainda fosse viva. O meu pai teria mais ocupação. Tenho um grande desgosto por ela ter morrido no lar. Mas vai daí teriam deixado a minha mãe morrer no hospital, não fosse eu teimar que ela vinha para minha casa. A vida é um grande desafio. À nossa capacidade de agir bem perante as adversidades que nos atingem. Criar laços com amigos e família é como cultivar desgostos futuros. Ainda vou ver tanta gente morrer. Isso incomoda-me. De alguma maneira é o que motiva o meu afastamento. Algo que estou a tentar contrariar, ainda sem muitos resultados à vista, à excepção deste “post”. Tinha de começar por algum lado. December 18 O Quim da FuneráriaIa aos enterros de todos os seus conhecidos. Não por se tratarem de seus amigos, mas porque era a sua profissão enterrar pessoas. E, claro, mais depressa enterrava um conhecido do que um desconhecio, até porque a Funerária era pequena e o Quim nunca expandira o negócio para lá das fronteiras do Bairro. Só na família Lobo, contavam-se já três os membros enterrados, salvo seja, que no caixão o Quim metia o morto inteiro. Por isso, foi com espanto e alguma preocupação que o penúltimo dos Lobos vivos recebeu a notícia da morte do Quim. "Quem iria agora tratar do enterro dos ainda sobreviventes?" Menos grave do que isso, mas nisso, pensavam os conhecidos do Quim ainda vivos e de boa saúde, quem na funerária do Quim enterraria o próprio. Já que um morto de livre vontade não caminha para a cova, não é preciso estar no negócio para saber isso! Havia claro, os funcionários que o Quim empregava. Talvez eles o levassem para a cova. Num gesto não muito de compaixão, que o Quim era mau patrão. Seguro, os funcionários do Quim iriam enterra-lo com todo o gosto. A madeira mais cara. Direito a lençol por baixo com as insignias da sua empresa. Enfim, um funeral de primeira. Assim esperam os conhecidos, era o mínimo que se lhe podia fazer. Quanto ao futuro do negócio, estava nas mãos de Deus, juntamente com a alma do falecido. Amén! November 26 Dicas para particulares que querem ajudar os Sem-AbrigoÉ quase Natal. E como de costume, por esta altura os corações dos humanos palpitam boa-vontade. Se de repente sente uma necessidade urgente de ajudar o Sem-Abrigo mais próximo da sua área de residência, e não pertence a nenhuma entidade organizada de caridade, pelo que age por própria conta e risco, leia aqui algumas dicas, que podem ser úteis para - surpresa! - poder ser bondoso o ano INTEIRO:
- Oferecer alimentos que possam ser consumidos de imediato e na totalidade, ex: latas de atum e pacotes de leite pequenas pequenos (dar 500 gramas de atum e 1 litro de leite não mata mais a fome, porque um Sem-Abrigo não dispõe de sítio para armazenar alimentos e além disso são quantidades enormes para serem consumidas de uma só vez por quem pouco come, mas em caso de dúvida experimente se é capaz de comer 500 gramas de atum sem qualquer confeccionamento e empurrar com 1 litro de leite), oferecer sandes já confeccionadas (ou vendidas em supermercados, ou porque não confeccionadas por si?) em vez de pacotes de friambre, ou mortadela, ou queixo, há ainda iogurtes, fruta, e outros alimentos de consumo...
(a continuar...) Simplesmente ofensivo "És sempre sincera e verdadeira comigo?" November 10 A minha avó mandou perguntar...Chego uma hora atrasada e a minha avó tem já as batatas a cozer na panela.
- Viste a minha mensagem?
A minha avó não sabe ler. Qualquer atraso tem de ser comunicado por sms ao meu tio que trata de lhe dar o recado, quando não se esquece.
- O teu tio só me disse agora.
O relógio da cozinha marca as 12 horas, a mensagem dizia que ia chegar uma hora mais tarde do que as 11 horas combinadas no dia anterior.
- Atrasei-me a escrever o artigo.
Trago na saca o resto dos ingredientes para fazer caldo verde: a couve. Trago castanhas e pimentos para assar com as sardinhas que a minha avó tem a descongelar. De caminho passo pelo talho para satisfazer mais um desejo da velhota.
- A minha avó mandou perguntar se havia redenho?
- Há, sim senhora. A dona do talho mete um naco de carne num saco plástico.
- Diz à avó que vai aqui o talão.
Sorrio. Por momentos retorno à infância quando a minha outra avó, a Dona Augusta, me mandava à mercearia do senhor José e me dizia que não me esquecesse do troco e do talão. Nunca pensei que anos tão tarde iria viver o mesmo, já não no Bairro de São Roque da Lameira, mas na Areosa, na mãe da minha mãe.
- Tens aqui o redenho...
- Vou juntar estas febras e vamos fazer o redenho, vens amanhã?
- Não, faz na quinta que eu quero ver como fazes isso.
Ficamos assentes. Quinta será dia de aprender a cozinhar o redenho...
- É para fritar?
- Não, faz-se num tachinho...
Aprendo a cozinhar à moda antiga com a minha avó. Diz-me que é também à moda da minha mãe, que aprendeu com ela. Não tive tempo de deitar sentido aos pratos que a minha mãe confeccionava. Não tive tempo para nada. Foi-me roubado. É essa a sensação que sempre me persegue. A de me terem roubado o tempo de velhice da minha mãe, aquele em que eu iria "botar" sentido aos seus segredos culinários. O tempo em que me iria sentar com ela à mesa e queixar-me dos seus netos endiabrados, ou rir das suas malandrices. Foi tanto tempo roubado que me sinto vazia de futuro. Por isso agarro com força o presente.
- Vamos assar as castanhas, ou já não há tempo?, pergunta a minha avó.
Ofereco-me para as descascar.
- Há tempo, isto é num instante.
Não fiz isto muitas vezes, mas lá me arranjo.
- Dá um golpe a meio...
Enquanto trato de golpear, a minha avó descasca a chouriça para o caldo verde. Peço-lhe umas rodelas para ir trincando...
- Lembras-te quando nos mandavas, a mim e ao Pedro, pão com chouriça pela mãe, ao sábado?
A velhota acena que sim. Estávamos sempre à espera que a minha mãe chegasse da Areosa com os tais moletes. Era o nosso lanche das 18 horas. Ora com chouriça, ora com presunto, que a minha avó às vezes ganhava nas rifas. Pomos as castanhas na água com sal. Depois de golpeadas, vão novamente com sal num tabuleiro ao fogão a gás.
Na cozinha velha pomos as sardinhas a assar num grelhador bem velhinho e côncavo. A grelha ferrugenta dos pimentos não está em melhor estado. A minha avó passa-os pelo fogo do gás para "queimar" eventuais micróbios. E eis que a magia acontece. Entre tachos bafos, garfos tortos, fogões ferrugentos e colheres de pau partidas, surge a melhor comida que tenho comido nos últimos tempos. Desde que a minha mãe morreu.
- Estão boas?, pergunta-me a velhota.
Nem páro de comer.
- Está tudo muito bom!
As sardinhas têm gosto de brasa e sal. O caldo verde com a chouriça queima a língua e nem assim consigo esperar que arrefeça. E as castanhas a terminar... vale a pena o trabalho de ter de limpar o fogão, lavar a loiça, esfregar a pingadeira e varrer a cozinha, mas mais de mil vezes. Entre os paladares e a conversa com a velhota sinto que algum tempo me é devolvido. Sinto uma felicidade por estar viva que raramente sinto. As mãos que teclam cheiram a sardinhas e estão aspras. Mas no coração que pensa as palavras há hoje mais um sopro de vida. October 26 Paulo, o suicida Percorreu a ponte D. Luis I determinado a saltar ao rio. Os motivos eram mais que válidos. Não os partilhara com ninguém, porque acreditava piamente não poder ser demovido. Levava a camisola presa pela anca, apesar do frio que fazia. Primeiro mirou a paisagem. Depois respirou. Pos as mãos no ferro e alçou a perna esquerda. Virou-se de costas para o rio e prepara-se para passar a outra perna quando se sentiu agarrado pelo cinto das calças. - O que fazes? Surpreso por a resposta não ser evidente, Paulo explicou-se ao desconhecido: - Vou saltar! Por instantes verbalizou o que lhe passara pela mente durante meses. Suicidar-se. Não valia a pena viver, por que não. Porque só fazia merda. Porque só fazia sofrer as pessoas de quem gostava. Porque morto não faria mais estragos. Foi nessa noite que conseguiu partilhar esses pensamentos com outro ser humano. Aquele desconhecido que estava a passear na ponte sem dramas existenciais. Só pelo passeio. Pela noite. Pela brisa. O brilho das luzes reflectidas nas águas escuras do Douro. Sem que nada o fizesse prever, tinha a vida de outro humano presa por um cinto. E agora imaginava o outro a saltar para a morte, caso não estivesse ali. Por momentos questionava a sua própria decisão de ir até aquele local. Fazia-o com frequência para espantar a tristeza. Não podia contudo dizer que fazer semelhante coisa não lhe tivesse passado pela cabeça. Uma vez. Talvez mais uma outra. Mas nunca ao ponto de passar a perna para o outro lado do gradeamento de ferro no qual apenas se debruçava para mirar a vista. - Não vais nada! Eu não te solto e vamos parar os dois lá em baixo! Paulo retrocedeu. Porque o outro iria cair quase de certeza. E suicida queria ser, homicida, não! Só iria agravar a sua lista de acções gravosas e Deus, a existir, já estaria suficientemente fodido pela merda que já fizera até àquela noite em que decidira não voltar da ponte. Com os pés assentes no tabuleiro de cima sentiu o frio da noite e começou a tremer. - Veste a camisola!, disse-lhe o desconhecido. Paulo obedeceu. Por momentos olharam-se sem palavras. Apenas a mão um no outro. Nenhum dos dois estava preparado para grandes discussões filosóficas ou teológicas. Dois homens, uma ponte. Palavras inúteis poderiam corromper o drama. O sofrimento era real. O salto, uma opção. Um benefício de quem tem o livre-arbítrio para decidir entre o bem e o mal. Uma regalia de humanos. Quando as mãos de apartaram o desconhecido virou costas e começou a caminhar rumo a margem do Porto. Paulo ficou mais uns minutos e depois seguiu-lhe os passos na mesma direcção. October 09 Volto qualquer dia destes...Um dia destes eu volto. De vez. Ou talvez temporariamente. É tão difícil continuar. Dou voltas. Mais voltas. E não consigo voltar a mim. Faltas-me tu de ponto de referência. Eras o meu "você está aqui"! Sem ti, não estou em parte nenhuma. Como posso voltar se não tenho para onde? Voltar a Espanha? Com a Sónia e o Vali que chegam amanhã? Voltar a Braga? Quem queria encontrar não vai voltar. Voltar para tua casa? Também não vais lá estar. E à minha casa não me dá vontade voltar. Se amanhã os telemóveis estiverem desligados, fugi!Quando a felicidade atinge os limites do intolerável fugir torna-se o mais lógico. Aceito a tristeza como inevitável e não lhe resisto. Mais insuportável o peso da felicidade. Imagino um fim súbito e fatal. E fugo apenas afim de o evitar. Ainda que ele não venha a acontecer. Acabo por o precipitar. No desespero de o prevenir. Não sei se serei capaz de te encontrar amanhã. Estou inclinada a desligar os telemóveis. |
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