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    January 20

    Antítese

    Havia uma rapariga que estava parada. Havia um rapaz que não conseguia parar. Ela queria que alguém a ajudasse a mexer. Ele queria que o parassem. Há histórias assim, que não são para ser contadas. Apenas para serem vividas.
    January 18

    Onde estão os 30 mil novos empregos?

    Tenho um amigo, o Jorge, que está desempregado. Não é o único, infelizmente, comigo incluída, somos muitos. Mas este meu amigo tem um não sei quê especial. É um contestatário, por natureza, e acho que no fundo nem se apercebe bem dessa sua qualidade. Neste momento, o Jorge está em Lisboa. Deslocado. Em formação para uma empresa multimédia, mas para trabalhar como operador de Call Center. Podia-se perguntar o que faz um homem do norte fazer as malas e rumar a Lisboa para trabalhar num emprego que poderia arranjar aqui? A resposta não interessa. O Jorge é assim, aventureiro. Gosta de arriscar... Já esteve três meses no Perú à procura de emprego, mas essa é outra história que não cabe aqui. Voltando a Lisboa. Está então o Jorge lá em baixo e a mãe, cá em cima, liga-lhe e diz-lhe que na televisão ouviu o Sócrates anunciar que iria criar 30 mil novos empregos. Ora, estando o Jorge desempregado, como muitos de nós, a notícia interessou-lhe. Então, e aqui reside a diferença entre o Jorge e os outros, os mais conformados, o que fez o Jorge? Aproveitando o facto de estar bem no lugar onde todas as decisões importantes ao país são tomadas (ou pelo menos deveriamos acreditar que o são, uma vez que são tomadas por quem foi por 'nós' eleito), o Jorge foi directo ao Largo do Rato. Sim, leram bem. Ao Largo do Rato, à sede do Partido Socialista. Chegou lá, dirigiu-se à recepcionista e foi directo ao assunto. Perguntou-lhe onde estava o regulamento para ele se candidatar a apenas um dos 30 mil novos empregos que o nosso Primeiro-Ministro tinha anunciado criar durante uma sessão na Assembleia da República. Coisa estranha? Não! Era o que todos os desempregados deviam fazer. E, surpresa das surpresas: então não é que a recepcionista disse ao Jorge que contactasse a Assembleia da República para averiguar! Para quem ainda está de boca aberta eu cito o que o Jorge ouviu da boca da recepcionista: "Nao tenho conhecimento do que se passa na Assembleia da República tem de telefonar para a Assembleia da República!" Agora, digo eu: Vamos lá ligar para a Assembleia da República todos? Ás tantas estão lá os postos de trabalho às moscas e nós aqui sem emprego! E, então ninguém nos diz como nos podemos candidatar? Aqui fica o número para os mais corajosos: 21 391 90 00. É ligar e pedir para falar com o Engenheiro Sócrates. Boa sorte a todos e vêmo-nos lá, nos "jobs for the boys and girls"!
    January 13

    De arrepiar (Urbanos - parte 2)

    A indignação ouvia-se baixinho ao som do bater das colheres nas chávenas... “Parece impossível, não bastava estar morta, ainda foi cremada!” Quem ouvia o relato do fúnebre fado de Alicinha não aguentava o final de olhos enxutos. “Queimada, bem pior que enterrada…” Era este o âmago da questão. Mãe de um filho único, Alicinha era viúva e à sua morte, o herdeiro decidira cremar a progenitora. Para colocar as suas cinzas junto das ossadas do pai, no ‘gavetão’. Antecipando um rosário de enterra e desenterrada do caixão até que da mãe não restassem senão ossos, o filho decidira apressar a fase da decomposição. Do pó vieste ao pó regressarás. E, assim o fogo tudo levou.

    O problema estava a ser o falatório. Á cautela, o filho garantia ter apenas cumprido a vontade de Alicinha. Acto que merecia o louvor dos mais novos. “Foi uma decisão lúcida”, elogiavam. A pensar talvez na falta de espaço para os enterramentos nos cemitérios. Porém, para os mais velhos, talvez por se encontrarem, pela lei da vida, mais próximos da morte, a cremação não fazia mesmo o menor sentido. Para quê sujeitar o morto a mais esse sofrimento? Interrogavam-se os amigos e vizinhos de Alicinha. Pairava a suspeita sobre o filho de que teria inventado a história da “decisão lúcida” para evitar a preocupação com os arranjos florais na campa da falecida.  

    “Não me lembro de ela dizer que queria ser queimada”, repetia a sua vizinha da frente vezes sem conta. Por mais que puxassem pela cabeça naquela tarde no café, onde outrora também Alicinha matava o tempo, não havia memória de tal vontade fúnebre. A não ser… Uma outra vizinha, do rés-do-chão, recordava certa tarde em que ouvira da boca de Alicinha que tardava o dia em que Deus a chamaria para junto do marido. Pois, para “junto do marido”, talvez tivesse vindo dessa frase a dedução do filho que a vontade da mãe seria a de ser posta no gavetão. Claro está, literalmente, “junto do marido”, ou pelo menos do que dele restava.

    Com este novo facto, os ânimos serenaram. Todos calaram os comentários e fez-se um silêncio pesaroso. Até que uma voz corajosa interrompeu o momento. “Eu acho que ela queria dizer “junto do marido”, no Céu e não no cemitério”, arriscou um viúvo, amigo do falecido marido de Alicinha, que conhecia bem o casal desde a mocidade. Foi quanto bastou para lançar mais uma acha para a fogueira. Certo era que Alicinha não voltaria do mundo dos mortos – e cremados – para se pronunciar. E, como tal, nunca a verdade seria apurada. Restavam as especulações. Que duraram ainda alguns dias. Até que um novo evento de maior actualidade ganhou destaque. Uma vizinha lá da rua deixara o aquecedor ligado durante a noite e, por curto-circuito, pegara fogo à casa. Um acidente dramático, sem vítimas, “graças a Deus”, mas merecedor de grande discussão, sobretudo por estar associado à onda de frio polar. Já de si uma novidade. E, por ir ao encontro de um “problema real” do bairro. A maioria das casas – de renda quase congelada – era mal calafetada. De nada serviam os aquecedores, nem os pedidos de obras de melhoramento aos senhorios. O assunto a todos causava calafrios. E, foi desta forma que ficou enterrado o caso Alicinha, até porque estava cremada e, ao menos, não morrida de frio (polar).

    January 11

    Alerta laranja

    A minha casa é muito fresquinha no Verão. Dito de outro modo: é um autêntico congelador no Inverno. O gelo não tem facilitado a minha vida. Assim, os graus negativos obrigaram-me a tomar algumas medidas. Mais um cobertor polar na cama, a acrescentar aos dois já existentes e ao edredão de penas. Uma passadeira a calafetar a porta da varanda. Jornal e fita-cola a isolar os buracos respiradores do postigo da cozinha. Tripas em tudo quanto é porta. E, o termoventilador sempre a rodar do quarto para a casa de banho. Aproveito as manhãs na sala ao sol para acumular calor no corpo para poder trabalhar sem luvas e cachecol. A minha maior preocupação: as minhas plantas. Mudo os vasos de um lado para o outro em função da luz solar. Rego-os com moderação para que a terra seque bem e as raízes não apodreçam com o frio. Uso chá, em vez de água. O mesmo que bebo, bem quente antes de dormir. E, até ver, estamos bem. As folhas continuam verdes e vermelhas e eu ainda não me constipei.
    January 08

    O dia dos teus anos

    O que faríamos hoje? Estavas-me a abrir a porta de casa, com a tua cópia das chaves e sem tocar à campainha, neste preciso momento.Trazias o casaco azul forte que o Pedro que deu no Natal passado. Vinhas com a cara fria e o teu gorro castanho. Entravas a bufar, cheia de calor, apesar do frio polar. Sentavas-te no sofá e dizias: "Temos o dia por nossa conta que o teu pai só sai às seis!" Eu perguntava-te se querias leite. Tu respondias que tinhas tomado o pequeno-almoço com o pai às seis da manhã, mas que tomavas uma caneca. Eu largava o computador e ia até à cozinha para por o leite a aquecer. Depois, voltava para trás: "Ou tomamos o pequeno-almoço na Baixa?" Tu prontamente acordavas: "Pode ser!"
    Saíamos como de costume, "sem destino", rumo à Confeitaria do Bolhão. Seguia-se um longo passeio pelos Saldos até à hora do almoço. A ementa: Chinês! Sobremesa: Gelado Frito. De novo "em trânsito" pela Baixa. Lojas, roupas... e muita conversa. Muito cortar na casaca. E, planos. Muitos planos, para o futuro. Planos de renovação da casa. Planos sobre a minha mudança de casa. O teu presente... Umas calças de ganga escuras. E mais uma carteira. Talvez um novo gorro, também. Preto e mais quente por causa do frio polar. Ao passar pelos Aliados, comprava-te um raminho de violetas, que tu adoras... naqueles senhores que as vendem à porta da Igreja.
    Ao jantar, estaríamos todos em tua casa. Tu farias um belo de um assado de lombo. Haveria bolo. Chamavamos o Pedro Miguel. A tia Gorreti aparecia com o tio, a Liniana, o Miguel, o Gonçalo e a Ana. Sem tu saberes, aparecia o tio Carlos... A tia Fátima, a Cristina, o Zé, o André, a Claudia, o Nuno e o Artur mais o Carlos André. E, surpresa das surpresas. Traziam a avó ao colo pelas escadas acima:) Cantariamos os parabéns e secretamente todos daríamos Graças a Deus por mais um ano na tua companhia.