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    October 27

    A poucas horas...

    ...da verblização dos meus maiores medos. A minha fé não sairá abalada.
    October 23

    Post-it to Heaven, notes from Hell

    Que farias tu hoje para me resgatares à tristeza? Vinhas carregado cá a casa. O portátil. As colunas. As torres de DVD's. Mandavas-me estar "quietinha sentadinha no sofá", arrastavas as duas cadeiras a mesa e montavas uma home cinema improvisada. Vias a minha impaciência por me estares a desarrumar a mobilia e tranquilizavas-me: "eu volto a pôr tudo no sítio". Eu olhava-te desconfiada de tanta benevolência e avisava que irias dormir no sofá. Tu sorrias. Abanavas a cabeça e fingias-te muito indignado. "Lá estás tu, mulher, um gajo não te pode fazer um agrado que tu vens logo com duas pedras na mão!" Pedias a manta. Punhas um filme animado. Eu reclamava que não era nenhuma criança. Tu suspiravas para não me chamar idiota. Sentavas-te ao meu lado. E punhas as minhas pernas por cima das tuas. De baixo da manta passavas a mão nos meus tornozelos. "Cuidado para não te magoares nos pêlos das pernas", dizia eu para quebrar o clima que tu tanto te esforçavas por criar. "Mulher, quero lá saber que não faças a depilação, afinal vou dormir no sofá!" Sabes, tenho saudades tuas. Muitas. Tenho tanta inveja da vontade que tinhas de viver. E, no entanto, estás morto. E eu que pouco ligo à vida, tenho tanto tempo pela frente que me aborrece só de pensar. Tu devias estar vivo. Eu merecia ter morrido. Lamento tanto não ter morrido contigo nessa noite. Devia ter morrido contigo nessa noite. Morri contigo nessa noite. Mas este corpo ainda me prende aqui. Resgata-me desta tristeza.

    Três anos depois... as causas: "Todo o tempo do Mundo", Rui Veloso

    Porquê? Foi uma pergunta que nunca fiz a mim mesma. Porque achei que a resposta era: porque fui leviana. Pedes que diga preciso de ti todos os dias. Mas foi esse verbo que nos levou à separação. Precisar. Eu precisava de ti a todo o momento. Mas o teu telemovel não parava de tocar nas tuas folgas. E tu começaste a meter-nos no shopping. Para poderes atender o telemóvel sem peso na consciência por me pensares entretida a ver as lojas enquanto tu resolvias os problemas da loja. A meter-nos no cinema para teres uma desculpa para não atender as chamadas da loja. E aos poucos eu fui sendo transformada num acessório. Quantas vezes as tuas respostas às minhas inquietações passavam apenas por um: deixa lá isso. Eu apenas levei isso ao extremo e deixei-te. Fui deixando. Preenchi a minha vida com os meus amigos a quem partilhava o que não te contava a ti. "Falava e tu não me ouvias e depois já nem falava e já nem me conhecias..." Os outros conheciam-me melhor do que tu. Achavas que "o valor do que fazias era tal que se parasses o mundo à volta ruía". Desvalorizavas o meu trabalho e o dos meus amigos que dizias serem desocupados, por ocuparem o tempo que podiam comigo a ouvir-me em vários programas que combinávamos. Sem ti, porque tu como dizias não tinhas a nossa vida. Pensaste que ir e voltar todos os dias era um sinal da tua presença. Não era. De tal modo que estiveste mais presente na tua ausência. Dedicaste-me mais tempo quando nos separamos. Depois já "tinhas todo o tempo do mundo" para mim. Agora faço questão de não precisar de ti. Para não sentir falta de ter a quem contar a minha "pequena glória, o meu pequeno troféu". Varri ese verbo da minha vida. Não preciso de ninguém.
    October 21

    Fora da minha asa

    Saíste de baixo da minha asa. E toda a minha garra em te proteger deu lugar a um medo terrível. Não consigo confiar nos médicos que te rodeiam. Será loucura, pensar que eu, melhor do que ninguém, melhor do que tu mesma sei o que é bom para ti? Como cheguei a esta conclusão? Foi excesso de cuidado? De preocupação? Leituras a mais sobre a tua doença e o modo de a combater? Estou cansada de lutar pela tua vida e nem me dei conta de que é tudo o que sei fazer. Fui-me desfazendo do que tinha para fazer e com o teu internamento fiquei desempregada. Não tenho de te fazer o chá, de te lembrar para tomares o suplemento de alcachofra, em jejum e ao deitar, de comprar mirtilho, amoras e groselhas, de fazer o estufado de vegetais, de te avisar para não comeres essas "porcarias" que tanto gostas, verificar se não te acaba o leite de arroz, a compota de cevada. Não tenho de andar atrás de ti com o algodão embebido em água de rosas para refrescares a pele, de te passar o creme no corpo por causa das tuas comichões, de fazer massagens nos pés. Ter-te fora da minha asa, não é um alívio, é uma angústia.
     
    October 19

    A correr atrás do vento

    ... "A vida é uma  ilusão. Tudo é ilusão. Gastamos a vida a trabalhar, esforçamo-nos e no fim o que ganhamos com tudo isso? As pessoas nascem e morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo. O sol continua  nascer e a pôr-se, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez. (...) Todas as coisas levam as pessoas ao cansaço - um cansaço tão grande que não dá para contar. (...) Não há nada de novo neste mundo. (...) Ninguém se lembra do que aconteceu no passado; quem vier depois das coisas que vão acontecer no futuro também não se vai lembrar delas. (...) Resolvi estudar tudo o que se fas neste mundo e digo: tudo é ilusão. É tudo correr atrás do vento. (...) Quanto mais sábia é uma pessoa mais aborreciementos tem; e quanto mais sabe, mais sofre. Então resolvi divertir-me e gozar os prazeres da vida. Mas descobri que isso também é uma ilusão. Cheguei à conclusão que o riso é tolice e o prazer não serve para nada. Procurei descobrir a qual a melhor maneira de viver e resolvi alegrar-me e me divertir. Pensei que fosse essa a melhor coisa a fazer durante a curta vida aqui na Terra. Realizei grandes coisas. (...) Consegui tudo o que desejei. (...) Sentia-me feliz com o meu trabalho, e essa era a minha recompensa. Mas quando pensei em todas as coisas que tinha feito e no trabalho que tinha tido para as conseguir fazer compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse a correr atrás do vento." (Eclesiastes, ou o Sábio)
    October 18

    Never Ending Story - Within Temptation

    Armies have conquered
    And fallen in the end
    Kingdoms have risen
    Then buried by sand
    The Earth is our mother
    She gives and she takes
    She puts us to sleep and
    In her light we'll awake
    We'll all be forgotten
    There's no endless fame
    But everything we do
    Is never in vain

    We're part of a story, part of a tale
    We're all on this journey
    No one is to stay
    Where ever it's going
    What is the way?

    Forests and deserts
    Rivers, blue seas
    Mountains and valleys
    Nothing here stays
    While we think we witness
    We are part of the scene
    This never-ending story
    Where will it lead to?
    The earth is our mother
    She gives and she takes
    But she is also a part
    A part of the tale

    We're part of a story, part of a tale
    We're all on this journey
    No one is to stay
    Where ever it's going
    What is the way?
    We're part of a story, part of a tale
    Sometimes beautiful and sometimes insane
    N o one remembers how it began.

    Oração improvisada

    Ajuda-me Senhor a encontrar as respostas às minhas dúvidas. Porque me sinto sempre eu a nadar contra a maré? Sozinha. Ainda bem que o meu pai me pôs antes a aprender a nadar do que no ballet em pequena... O meu irmão reage mal à minha crença. Por acreditar que tu podes curá-la. Por acreditar que o meu esforço faz a diferença. Aconselha a que me "poupe" quando lhe peço que me ajude. Por dizer em voz alta: "O Senhor é meu pastor e nada me faltará". Ele troça de mim. Outros troçarão também. Suspeito. Entristece-me. Queria fazer a minha mãe entender que não foste tu que a puseste doente. Mas que se ela confiar em ti e tiver esperança, a vida surge. Do inesperado. Como as hastes que corto e ponho em água para criar raíz e voltar a plantar num vaso novo. Herdei da minha mãe o gosto de plantar. Dá-me a sabedoria para lhe transmitir o que aprendi contigo. "Que tudo neste mundo tem o seu tempo, cada coisa tem a sua ocasião" (Eclesiastes, 3, 1-8). Obrigada por me teres mostrado o verdadeiramente essencial. A minha vida era feita de tantos "essenciais" que agora são acessórios. Curaste a minha cegueira existencial. Obrigada por me fazeres ver o que antes não tinha a minha atenção. Olha sempre por mim e pelos que me rodeiam.
    October 16

    Post it to Heaven, notes from Hell

    Sinto-me soterrada. Será que vou acabar na "sala branca almofadada" como tu dizias? Procuro lembrar-me de todas as tuas "receitas" para uma vida feliz. Tento pô-las em prática. Raramente acerto no tempero. Suponho que o cozinheiro faça a diferença. E só tu sabias o sabor que a vida tem.

    O conforto de um grande amigo

    "Nunca se sabe... pode haver folhas que boiem..."
    October 08

    Post it to Heaven, notes from Hell

    Como se tivesse regressado a mim depois de muito tempo fora. Como se o ar tivesse voltado sem aquela necessidade de acelerar a paisagem para respirar o vento.
    October 04

    Uma cerveja com o meu "padrinho"

    Estou sentada na esplanada com o meu "padrinho". Queixo-me do afilhado dele. Não aparece tanto como eu gostaria. Podia fazer a minha mãe mais feliz com visitas mais frequentes. Confesso que estou cansada. Que aceitaria de bom grado mais ajuda do seu afilhado. Mas que ele falha. O meu padrinho olha-me com os olhos quase em lágrimas. Desata o nó na garganta com mais um gole de cerveja. "Pelo menos um de vocês não pode falhar", diz-me. A escolhida fui eu.