| Andreia's profileAr & CuraPhotosBlogLists | Help |
|
October 26 Paulo, o suicida Percorreu a ponte D. Luis I determinado a saltar ao rio. Os motivos eram mais que válidos. Não os partilhara com ninguém, porque acreditava piamente não poder ser demovido. Levava a camisola presa pela anca, apesar do frio que fazia. Primeiro mirou a paisagem. Depois respirou. Pos as mãos no ferro e alçou a perna esquerda. Virou-se de costas para o rio e prepara-se para passar a outra perna quando se sentiu agarrado pelo cinto das calças. - O que fazes? Surpreso por a resposta não ser evidente, Paulo explicou-se ao desconhecido: - Vou saltar! Por instantes verbalizou o que lhe passara pela mente durante meses. Suicidar-se. Não valia a pena viver, por que não. Porque só fazia merda. Porque só fazia sofrer as pessoas de quem gostava. Porque morto não faria mais estragos. Foi nessa noite que conseguiu partilhar esses pensamentos com outro ser humano. Aquele desconhecido que estava a passear na ponte sem dramas existenciais. Só pelo passeio. Pela noite. Pela brisa. O brilho das luzes reflectidas nas águas escuras do Douro. Sem que nada o fizesse prever, tinha a vida de outro humano presa por um cinto. E agora imaginava o outro a saltar para a morte, caso não estivesse ali. Por momentos questionava a sua própria decisão de ir até aquele local. Fazia-o com frequência para espantar a tristeza. Não podia contudo dizer que fazer semelhante coisa não lhe tivesse passado pela cabeça. Uma vez. Talvez mais uma outra. Mas nunca ao ponto de passar a perna para o outro lado do gradeamento de ferro no qual apenas se debruçava para mirar a vista. - Não vais nada! Eu não te solto e vamos parar os dois lá em baixo! Paulo retrocedeu. Porque o outro iria cair quase de certeza. E suicida queria ser, homicida, não! Só iria agravar a sua lista de acções gravosas e Deus, a existir, já estaria suficientemente fodido pela merda que já fizera até àquela noite em que decidira não voltar da ponte. Com os pés assentes no tabuleiro de cima sentiu o frio da noite e começou a tremer. - Veste a camisola!, disse-lhe o desconhecido. Paulo obedeceu. Por momentos olharam-se sem palavras. Apenas a mão um no outro. Nenhum dos dois estava preparado para grandes discussões filosóficas ou teológicas. Dois homens, uma ponte. Palavras inúteis poderiam corromper o drama. O sofrimento era real. O salto, uma opção. Um benefício de quem tem o livre-arbítrio para decidir entre o bem e o mal. Uma regalia de humanos. Quando as mãos de apartaram o desconhecido virou costas e começou a caminhar rumo a margem do Porto. Paulo ficou mais uns minutos e depois seguiu-lhe os passos na mesma direcção. October 09 Volto qualquer dia destes...Um dia destes eu volto. De vez. Ou talvez temporariamente. É tão difícil continuar. Dou voltas. Mais voltas. E não consigo voltar a mim. Faltas-me tu de ponto de referência. Eras o meu "você está aqui"! Sem ti, não estou em parte nenhuma. Como posso voltar se não tenho para onde? Voltar a Espanha? Com a Sónia e o Vali que chegam amanhã? Voltar a Braga? Quem queria encontrar não vai voltar. Voltar para tua casa? Também não vais lá estar. E à minha casa não me dá vontade voltar. |
|
|