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Simplesmente ofensivo "És sempre sincera e verdadeira comigo?" November 10 A minha avó mandou perguntar...Chego uma hora atrasada e a minha avó tem já as batatas a cozer na panela.
- Viste a minha mensagem?
A minha avó não sabe ler. Qualquer atraso tem de ser comunicado por sms ao meu tio que trata de lhe dar o recado, quando não se esquece.
- O teu tio só me disse agora.
O relógio da cozinha marca as 12 horas, a mensagem dizia que ia chegar uma hora mais tarde do que as 11 horas combinadas no dia anterior.
- Atrasei-me a escrever o artigo.
Trago na saca o resto dos ingredientes para fazer caldo verde: a couve. Trago castanhas e pimentos para assar com as sardinhas que a minha avó tem a descongelar. De caminho passo pelo talho para satisfazer mais um desejo da velhota.
- A minha avó mandou perguntar se havia redenho?
- Há, sim senhora. A dona do talho mete um naco de carne num saco plástico.
- Diz à avó que vai aqui o talão.
Sorrio. Por momentos retorno à infância quando a minha outra avó, a Dona Augusta, me mandava à mercearia do senhor José e me dizia que não me esquecesse do troco e do talão. Nunca pensei que anos tão tarde iria viver o mesmo, já não no Bairro de São Roque da Lameira, mas na Areosa, na mãe da minha mãe.
- Tens aqui o redenho...
- Vou juntar estas febras e vamos fazer o redenho, vens amanhã?
- Não, faz na quinta que eu quero ver como fazes isso.
Ficamos assentes. Quinta será dia de aprender a cozinhar o redenho...
- É para fritar?
- Não, faz-se num tachinho...
Aprendo a cozinhar à moda antiga com a minha avó. Diz-me que é também à moda da minha mãe, que aprendeu com ela. Não tive tempo de deitar sentido aos pratos que a minha mãe confeccionava. Não tive tempo para nada. Foi-me roubado. É essa a sensação que sempre me persegue. A de me terem roubado o tempo de velhice da minha mãe, aquele em que eu iria "botar" sentido aos seus segredos culinários. O tempo em que me iria sentar com ela à mesa e queixar-me dos seus netos endiabrados, ou rir das suas malandrices. Foi tanto tempo roubado que me sinto vazia de futuro. Por isso agarro com força o presente.
- Vamos assar as castanhas, ou já não há tempo?, pergunta a minha avó.
Ofereco-me para as descascar.
- Há tempo, isto é num instante.
Não fiz isto muitas vezes, mas lá me arranjo.
- Dá um golpe a meio...
Enquanto trato de golpear, a minha avó descasca a chouriça para o caldo verde. Peço-lhe umas rodelas para ir trincando...
- Lembras-te quando nos mandavas, a mim e ao Pedro, pão com chouriça pela mãe, ao sábado?
A velhota acena que sim. Estávamos sempre à espera que a minha mãe chegasse da Areosa com os tais moletes. Era o nosso lanche das 18 horas. Ora com chouriça, ora com presunto, que a minha avó às vezes ganhava nas rifas. Pomos as castanhas na água com sal. Depois de golpeadas, vão novamente com sal num tabuleiro ao fogão a gás.
Na cozinha velha pomos as sardinhas a assar num grelhador bem velhinho e côncavo. A grelha ferrugenta dos pimentos não está em melhor estado. A minha avó passa-os pelo fogo do gás para "queimar" eventuais micróbios. E eis que a magia acontece. Entre tachos bafos, garfos tortos, fogões ferrugentos e colheres de pau partidas, surge a melhor comida que tenho comido nos últimos tempos. Desde que a minha mãe morreu.
- Estão boas?, pergunta-me a velhota.
Nem páro de comer.
- Está tudo muito bom!
As sardinhas têm gosto de brasa e sal. O caldo verde com a chouriça queima a língua e nem assim consigo esperar que arrefeça. E as castanhas a terminar... vale a pena o trabalho de ter de limpar o fogão, lavar a loiça, esfregar a pingadeira e varrer a cozinha, mas mais de mil vezes. Entre os paladares e a conversa com a velhota sinto que algum tempo me é devolvido. Sinto uma felicidade por estar viva que raramente sinto. As mãos que teclam cheiram a sardinhas e estão aspras. Mas no coração que pensa as palavras há hoje mais um sopro de vida. |
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