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24 diciembre Último dia"Andreia, eu quero-me ir embora! Leva-me embora que estou farta de estar aqui!" Estava nervosa quando cheguei ao hospital naquela manhã. A Dona Anita permanecia ao lado dela, companheira de sempre, de alegrias e tristezas. Sorridente. Dizia-lhe: "Tenha calma Dona Linda!" Com o meu melhor humor tranquilizei-a. "Maria, queres ir embora vais! Don't stress!" Saí do quarto à procura de um enfermeiro. Sabia que em breve ficaria sem mãe. As funções vitais falhavam de dia para dia. A retenção de urina provocava um inchasso que a fazia ter o dobro da estrututa normal e um peso brutal. Havia semanas que tinha de a acompanhar à casa de banho. E tinha de a limpar, porque ela não o conseguia fazer, porque de tão inchada que estava não dobrava o corpo sobre si mesma. Levava-a a custo, pela minha estrutura ser mais frágil. Mas sempre com a melhor das disposições. Gozava com a situação. Tinha de me rir para não chorar. Se não como aguentaria o horror de a estar a limpar e as fezes a escorrerem as minhas mãos? "Pareces a canalha", gracejava... "Ponho-te a fralda e lá vem nova larada!" Ela ria. Comigo ao lado era assim, não tinha outra hipótese se não rir. Tenho este dom de conseguir dizer piadas sobre as coisas mais incríveis e em momentos em que a mais ninguém ocorre nada. E foi isso que sempre me valeu.
Quando encontrei o enfermeiro o vaticínio foi esclarecedor: "A sua mãe tem semanas, se tanto de vida..." Num minuto na minha cabeça revi todas as minhas tácticas de vida contra o cancro. Os livros que li. Os ervanários que corri. Os quilos de frutos vermelhos. O chá verde. O chá para o fígado. A soja. Os sabonetes para os estragos da quimio na pele. Recordei as idas ao restaurante chinês, às bifanas do Conga, aos cachorros do Via Catarina e em como ela adorava a minha lasanha... Pensei nos passeios pela Baixa às compras. E com tudo isto a eclodir chorei umas lágrimas que não chegaram a cair dos olhos. Porque sabia que tudo isso me seria impossível repetir, mas não tinha tempo para chorar. Pedi ao enfermeiro que tratasse da Alta. Ia levar a minha mãe para minha casa. Apesar de saber que seria a última coisa que faria com ela.
Voltei ao quarto, sorridente. "Maria, tudo se resolve!" Informei-a de que íriamos embora nesse mesmo dia. A alegria fê-la ganhar um pouco mais de vida. O suficiente para se queixar que não estava alí bem, que estava farta, que as assistentes não traziam a aparadeira a tempo, que não dormia bem de noite e que estava farta de estar naquele hospital. A Dona Anita ouvi-a pacientemente. Sorria. "Tenha calma!" E ela respondia: "Não tenho, porque estou farta, quero ir embora! Leva-me embora!"
As horas passavam... Esperava apenas uma médica que me iria dar umas instruções. Ela chegou. Meteu-me num gabinete e ainda enquanto ainda pousava a mochila que trazia numa cadeira já me dizia: "Sabe, nós não somos máqunas, isto para nós também é difícil, ninguém está preparado para ver alguém morrer..." Senti que ela ia começar um discurso meio decorado, qual caderno de encargos para familiares de doentes terminais. Resolvi brevia-la, porque não tinha muito tempo para desperdiçar ao lado dela, tendo a minha mãe ainda viva lá fora. "Eu sou cristã, acredito que a morte não é o fim..." Ela olhou-me num misto de pena e alívio. Como não gosto de penas, saquei do bloco e da caneta que tinha metido no bolso das calças. "Diga-me que cuidados preciso de ter com a minha mãe!" Apercebi-me do choque que lhe causei. Ela precisou de vestir a bata para ganhar tempo de se recuperar. E começou a ditar:
_ "Deve dar-lhe muita água, no que toca à alimentação pode dar-lhe o que ela quiser, de preferência evitar a gordura. Se ela vomitar, paciência, costuma acontecer. Manter-lhe as pernas para cima e hidratadas. Pode dar-lhe oxigénio, mas só em situação de crise, caso haja apenas uma sensação de falta de ar não deve colocar. Pode dar o Atarax à noite ou o comprimido para dormir... mas não sei se terá muito efeito... Vai colar no peito o penso para as dores e dura três dias. Se vir que as dores aumentam, pode colar mais um, ou dois... conforme, depois você é que tem de ver. Dá-lhe o Ben-u-rom, duas cápsulas de 8 em 8 horas. O Atarax, pode ser de 12 em 12 horas. Depois dá-lhe um Primzeriam 15 minutos antes das refeições, a ver se evitamos o vómito. O Mirtazefima é assim: dá-lhe de 12 em 12 horas, se ela ficar muito agitada, dá-lhe de 8 em 8 horas, se as dores forem muitas dá-lhe de 6 em 6 horas, mas claro, ela vai ficar toda 'pedrada', como se costuma dizer... então se quiser a sua mãe mais calma e com menos dores, mas menos consciente... diminui o tempo de toma, se quiser a sua mãe mais lúcida, espaça mais as tomas, mas ela vai ter mais dores... mas isso depois, também fica ao seu critério. Tem o Sevedrol, toma 1 em SOS, se a dor for muito aguda e pode tomar de 16 em 16 horas, mas pode até tomar de 4 em 4 horas... você é que vê depois o estado em que ela está. Leva também umas ampolas, toma uma por dia. E o Vrsotalk, toma dois por dia. Convém se calhar contactar o médico assistente. Se a sua mãe se sentir muito agitada se vir que ela esta a ficar inconsciente... tente não a trazer para a Urgência... porque não lhe vão fazer nada. É preferível tentar acalmá-la do que se precipitar com ela para o Hospital... e de resto parece que não me ocorre mais nada..."
Pousei a caneta sobre o bloco. O meu corpo tremia por dentro e a única coisa que eu queria era voltar o mais depressa possível para perto da minha mãe. Mantive a calma. Havia ainda uma dúvida que precisava de ser esclarecida. Tossi para desatar um nó que entretanto se tinha atado na minha garganta." E quando a minha mãe morrer, o que devo fazer?" Surpreendi-a. "Boa pergunta...", respondeu-me a médica, "sinceramente não sei..."
Senti que me fugia o chão. Mas, mais uma vez não havia tempo para perder em lamentos, desesperos nem revoltas. Pus a máscara do "está tudo bem e ainda vai ficar muito melhor" e dirigi-me ao quarto para lhe dar a boa notícia. "Vais ter Alta, a médica diz que o que estás a fazer aqui podes fazer em casa, por isso "don't stressait" ... vais cheia de medicação e vais tomar tudo direitinho, ah, e vais para minha casa para eu poder cuidar melhor de ti!"
As horas que se seguiram foram as mais longas da minha vida. Esperamos 4 horas por uma ambulância para que nos trouxesse embora daquele lugar. Durante esse tempo de impaciência registei muitas palavras da minha mãe. Sempre a pensar que seriam as últimas. Abracei-a e beijei-a o mais que pude. Mantive-a encostada ao meu peito, quando ela sentada no cadeirão pedia algum descanso para a cabeça. Prometi-lhe que se curaria em minha casa, sob os meus cuidados. Ela encomendou a ementa dos dias que se seguiam. Queria comer empadão, a minha lasanha e tangerinas. "Vais ver, minha filha, não te vou dar trabalho nenhum. Eu sento-me no teu sofá descansadinha e tu trabalhas no teu computador..." Foi esta a frase que mais me marcou. A preocupação dela em não dar trabalho...
De facto, tal como ela havia dito, não deu trabalho nenhum. Horas mais tarde. A minha mãe morreu, já em minha casa, no meu sofá, deitada. E, a única coisa que tive de fazer para ela foi um chá de camomila.
22 diciembre Mirror of Erised - Harry Potter and the Philosopher's Stone"It shows us nothing more or less than the deepest, most desperate deisre of our herats. (...) However,this mirror will give us neither knowledge or truth. Men have wasted away before it, entranced by what they have seen, or been driven mad, not knowing if what it shows is real or even possible. (...) It does not do to dwell on dreams and forget to live...", Dumbledore. 19 diciembre O caminho é estreitoO esforço é tanto. E, o caminho é tão estreito. Será muita a distância entre o que quero e o que preciso? Não preciso que ninguém me leve ao colo, mas estou cansada de ver as minhas pegadas na areira. Levas-Me Tu? No Teus braços? Porque tenho as pernas a tremer de tanto andar sem destino. Corro para qualquer lado por não saber onde ir. Por isso estou esgotada. Levo-me à ponte... Vejo o rio. Onde me queres? Diz-me. Qual a razão de tudo isto? Não sei que lições tirar. Estou diminuida em toda a minha grandiosidade. Era para ser assim? Devo aceitar tudo sem revolta? Não estou revoltada contra Ti. Mas contra mim. Contra o que sou, tão distante do que queria ser. Mais próximo do que Queres que seja? Não sei. Ás vezes sinto-me indiferente a Ti. Mas se tu não me abandonaste e eu não Te abandonei, porque me sinto assim? Tantas vezes olhei para o Céu e senti que me amparavas. Mas agora sinto-me só, sem Ti, sem força. 12 diciembre Força do Alto... Não deixes que trocem de ti... Tu tens muito valor aos olhos de Deus... 07 diciembre Chove. Que fiz eu da vida?... enviado pelo JotinhaChove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!
Fernando Pessoa, 23-10-1931 A tua presençaDesfazem-se das tuas coisas. Querem esvaziar a tua casa da tua presença. E eu tenho de assistir a tudo. Impávida. Serena. Vai chegar a uma altura em que não vão haver vestígios teus em lado nenhum. A passadeira vermelha que tu pedias ao Jotinha que sacudisse foi para o lixo. O pai quer há força tirar a tua roupa dos gavetões para ter mais espaço para a dele. Disse-me que se não trouxesse os teus vasos embora que os deixava morrer... Vamos deitar a árvore de Natal fora, tal como querias e ele veio-me afrontar a dizer que deitava também os nossos enfeites. Aqueles que nós deviamos estar agora a pendurar... Serei a única a querer preservar as tuas coisas no sítio onde as tinhas? E, se é para apagar a tua presença... Então eu mesma apago tudo. Trago comigo as tuas coisas. Recolho-me na minha dor. Na minha saudade. Mas não volto a por os pés em tua casa. Quando já não sentir lá o teu cheiro, que Deus me perdoe, que tu, eu sei que me perdoas, mas não volto lá. Lost in Translation... do Eirado"... conviveste com a morte durante este tempo todo e agora a vida parece-te estranha..." LiderançaCansei-me de tomar decisões. Há dias numa conferência sobre liderança ouvi dizer que pior que decidir mal é não decidir. Tomei consciência que é nesse limbo que me encontro desde a morte da minha mãe. No das não-decisões. Tudo o que posso deixar por decidir é adiado. Para quando? Não sei bem. Estou certa de que o tempo da não decisão está ainda longe do fim. Talvez me sinta avassalada. Foram muitas decisões que me deixaram assim. Avassalada. Decisões de vida e de morte. Agora tomo muita mais consciência dessas responsabilidades. Decidi. Decidi. Assumi o fracasso várias vezes. Só. Como acontece aos líderes. Atribuí o sucesso a todos, quando ele era apenas meu. Tal como é aconselhado aos líderes. Liderei. Tanto, que agora me sinto melhor de braços cruzados. Adio tudo o que pode ser adiado. Adio a decisão de pegar na roupa há um mês por lavar, até não ter mesmo mais nada que vestir. Adio a limpeza, até que a sujidade me enoje ao ponto de não me apetecer voltar para casa. E, nessa altura, talvez deixe de adiar a decisão de sair desta casa. Deixar esta vida. Empreender por outros caminhos. Quando? A retoma do processo de decisões não tem dia marcado. Olho para o calendário. Dou conta que estou na última página. Tenho mesmo de a virar? Ou posso simplesmente adiar? |
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