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2月27日 Até que um raio a partaTrabalhava até tarde. Não que tivesse muito que fazer. Não que tivesse de adiantar trabalho. Apenas adiar o regresso a casa. Ia trabalhando ao som do YouTUBE. Era por volta das 22h que lhe dava a melancolia. Ouvia Elton John em dueto com Blue a cantar o "Sorry Seems to be the Hardest Word". Ligava para o telemóvel já desligado do ex namorado. E depois lembrava-se dos conselhos da amiga Sandrina que a aconselhavam a não ligar, e de outros tantos avisos sobre o que não fazer e não dizer. Todos retirados do livro "It’s Called a Breakup Because It’s Broken The Smart Girl's Break-Up Buddy", que Sandrina lhe oferecera por altura do Natal, mas que Andreia guardava na cabeceira quase ainda por ler. Para seu grande arrependimento nesses dias em que a melancolia a prendia à mesa de trabalho e só lhe apetecia ouvir o ex dizer alguma coisa simpática o que ela sabia nunca iria acontecer, ainda que ele tivesse o telemóvel ligado. Por isso, aguentava-se com o Elton a perguntar a si mesmo o que fazer para ser amado? Apetecia-lhe muito que a Verónica, irmã da Sandrina, não estivesse emigrada em Paris. Queria poder ir até casa dela, comer lasanha e tomar banho com gel de côco para depois dormir quentinha com pijaminha emprestado e mimo de "best friend". Mas não. Nem uma nem duas. Porque a Sandrina também tinha emigrado para o Luxemburgo. Mais um sms do ex ex namorado: "Já te passou a maluqueira" Resposta sensata: "Não sei do que estás a falar" A maluqueira era doença da qual ela achava que não sofria, mas todos achavam o contrário. Talvez a curasse na viagem a Marselha que faria com Carina, a sua sócia. Ou na passagem por Nice, Cannes ou Mónaco. Talvez levasse o seu gorro a gandim e assaltasse um Yate para as duas. Assim, sim. Iriam sem hotel marcado à aventura. O que diria o outro, o Pedro que acusava Andreia de não ser aventureira. Pudesse ele falar com o Paulo e este lhe contaria aquilo que ao Diabo faria arrebitar os pêlos do nariz. Mas isso também nunca aconteceria. Iria assim tranquilamente acabar a uma terça, quase quarta, o trabalho destinado a toda a semana. Saíria com o pôr do sol e depois fresca regressaria uns dias depois. Bono his killing me softly with his song with Mary J. BligeCantas a minha dor com as tuas palavras.
Contas a minha história com as tuas canções
E eu fico-te a ouvir e a recordar.
Estas a prolongar a minha dor com as tuas notas
Estás-me a matar lentamente Bono.
E a culpa também é da Mary. 2月13日 A ausência de PauloQuando ele bateu a porta, as lágrimas nos olhos a dizer acabava ali, ela não esperava que tanta coisa acabasse ali mesmo à porta do seu prédio. Mas acabou. Na altura pensava ela que o que acabava era só o amor. Foi dando pelo fim de tudo à medida que os meses foram marcando a ausência de Paulo. A primeira estranheza que notou foi a falta de quem lesse os seus textos. Perdera o primeiro leitor que tivera, o mais atento o mais crítico, o mais confiável. Havia tardes de longos domingos em que nada saía para o ecrâ do computador. Lembrou-se que era nessas alturas que a presença de Paulo na cozinha a fazer a sua massa tradicional com queijo fresco e moira a acalmava. Assim como o cheiro vindo dos tachos, a massagem nos ombros e as palavras reconfortantes: Anda lá tu consegues, ninguém é melhor a escrever do que tu. A ausência de Paulo arrastou com ele esses momentos de confiança que faziam a sua própria auto-confiança e faziam o seu mundo girar além do seu umbigo. Voltaram os conflitos paternais. Pois a ausência de Paulo aumentou a solidão familiar reduzida a quatro. Com a ausência de Paulo a estabilidade emocional ficou desiquilibrada. E todos da família notaram. Mas ninguém se preocupou muito. Faltava o Paulo para a obrigar a comer e ela emagreceu. Faltava o Paulo para lhe dar amor e ela perdeu o amor-próprio. Faltava o Paulo para a levar ao médico e ela deixou-se adoecer. A ausência de Paulo quase a fez morrer sem que ela se apercebesse que era essa ausência e nada mais. Não eram as discussões com o namorado novo. Não era a doença da mãe. Era a ausência de Paulo. A solidão não era a falta de amigos. As lágrimas não era a falta de quem as enxugasse. Era essa ausência avassaladora que colmatara outra ausência mais avassaladora ainda, a do seu avô. Aquele que deveria ter sido o seu primeiro leitor da fase adulta. Aquele a quem Paulo prometera olhar por ela junto ao túmulo e que cumpriu a promessa. Até que ela lhe abriu a porta do prédio e se despediu dele. Sem saber que a ausência de Paulo iria mudar toda a sua vida. |
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