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28 abril

O envelope almofadado

Já não me incomoda a tua ausência. Despedi-me de ti quando consegui meter todos (eram poucos) os teus presentes num envelope almofadado e pô-lo no Correio com destino à casa dos teus pais. O anel do compromisso. O pin que compraste na feira de Rio Tinto só porque achaste que a figura era parecida comigo. A luz de presença para que não tropeçasse durante a noite quando me levantava para ir à casa-de-banho. Enviei-te ainda o meu diário. Um ano de palavras que tu nunca entendeste, nem entenderás. Quem sabe, um dia, quando eu for uma escritora de sucesso possas fazer dinheiro com ele. Encara-o como algumas acções em vias de cotação na bolsa de valores literários. Enviei-te as bulas dos medicamentos todos que tomei por tua causa. Esforcei-me por ser cabra ao máximo. E consegui. Enquanto estiveste ausente muita coisa aconteceu. Fui má. Cobra. Peste. Louca. Desmedida. Estive fora de mim. Dentro de esquemas sórdidos. Afoguei as mágoas em litros e litros de tango, sangria, rum, licor beirão, piriquita. Juntei-lhes vários comprimidos. Ansiolíticos. Anti-depressivos. Sedativos. Estive dias e dias sem dormir. Estive dias e dias a dormir. Senti-me abandonada por DEUS. Parti do Porto umas quantas vezes. Voltei. Só para poder partir de novo. Rasguei o edredão azul de que gostavas. Cortei à facada o quadro que dizias ser o da nossa separação (os pedaços estão no envelope almofadado). Tingi os cortinados de branco. Comprei tapetes brancos. Mudei a disposição dos móveis da sala. Andei pelas ruas à noite só para te ver sair com a carrinha da Liga por uns segundos sem que me visses. Percorri todos os cantos da Ribeira a chorar por ti. Deitei-me no muro da Sé a pensar se valia a pena morrer para a acabar com o sofrimento que sentia por me teres deixado. Desejei a tua morte, cansada de tanto desejar a minha em vão. Desapareci por uns meses. Reapareci diferente. Cortei o cabelo, deixei-o crescer. Pintei-o. Arranquei as sobrancelhas. Esvaziei os gavetões de toda a roupa que tinha. Gastei resmas de dinheiro em roupa, maquilhagem, sapatos, sapatilhas, perfumes, relógios, viagens. Trabalhei até à exaustão. Deixei de comer. Comecei a comer como uma desalmada. Pesei 45 quilos, pesei 48, pesei 50, peso 55. Fiz natação, corri. Tirei mais um sem-abrigo da rua. A bondade reapareceu no meu coração. DEUS voltou-me a encontrar. Fiz 30 anos. Estou preparada para voltar a ser feliz. Ivo Figueiroa estou curada.
26 abril

Orgulhosamente trintinha

Aos 17 fiz tudo o que devia ter feito aos 18... Cheguei aos 18 e antecipei o que devia ter feito aos 19, 20, 21, 22. Aos 22 senti que andava a viver depressa demais. Que acumulava experiências que mais ninguém compreendia pois eram prematuras. Mas não abrandei. Aos 23 senti que tinha de speedar ainda mais que o mundo continuava a girar e eu ainda não tinha contribuído com o meu verso. Aos 24 senti-me realizada na minha profissão e pensei que podia morrer aos 27, tal como tinha planeado no meu idealismo romântico. Mas aos 25 e 26 descobri que ainda tinha a "selva nas asas" que me fez alcançar o mundo aos 17. Decidi viver para lá da data fatídica. Aos 27 emancipei-me dos meus pais. Aluguei a minha casa. Aos 28 desejei voltar a ter 18 e suspirei por alguma irresponsabilidade que não usufruí na altura. Fui irresponsável aos 29. Cheguei aos 30. E sinto, agora mais do que nunca que ainda há muito mundo para galgar. Mais viva. Mais forte. Ainda não fiz o meu verso. Mas está quase. E agora sei que o mundo não girará sem ele!!
19 abril

CHORO POR MIM, IVO, só por mim...

Amanhã faz um ano que a tua estupidez me derrubou. Faz um ano que os teus ciúmes me fizeram perder a dignidade. Faz um ano que as minhas explicação de nada valeram. Num apagar de velas alguém soprou o nosso amor para longe de nós. O meu amor. O teu, meu amor, nunca existiu. Amanhã faz um ano. E eu não vou chorar por ti. Choro por mim. Pelo que de mim perdi só para não te perder. Choro por mim IVO, SÓ POR MIM.
17 abril

A cura - pedaços de uma vida quase interrompida

Não sou a cura para a tua depressão, disse ele num tom severo. Depois seguiram-se algumas palavras que ela já não ouviu. Ele pagou o café. Ela nem se mexeu. Tinha ido ao seu encontro para dizer que o amava. Ainda. Mas calara-se. Saíram da confeitaria e ele deu-lhe dois beijos na cara. Pediu-lhe que ficasse bem. Foi nesse instante que ela percebeu que nunca mais iria ficar bem se continuasse a vê-lo. De facto ele não era a cura da sua depressão. Era a causa. Os amigos tinham soluções fabulosas. E todas acabavam no mesmo. Ela tinha de se afastar dele. Cortar os laços, diziam as amigas. Puxar o autoclismo, diziam os amigos. A todos ouvia. A todos dava razão. Mas por alguma razão que só ela sabia, mas não conseguia explicar tudo aquilo lhe parecia irreal. A ideia de já não namorar com ele era surreal. E o surrealismo era a sua corrente favorita. O humor flutuava arbitrariamente com tudo. Da excitação à decepção. Ele mudara de número de telemóvel, para não receber mais os telefonemas dela. Assim terminou a relação. Em tempos também ela tinha mudado o número de telemóvel, mas não com o mesmo propósito. Apenas com o de o assustar. Com ele, o gesto significava o corte. E ela respeitaria. Na medida do impossível. (...) Às vezes chegava a casa às cinco da tarde e deitava-se. Extenuada com o pouco ou quase nada que fazia. Acordava no outro dia. Bem cedo. Sete e poucos mais minutos. Quando sentia alguma energia levantava-se tomava banho. Arranjava-se e seguia para o emprego. Se não encontrava em si energia. Deixava-se arrastar numa sonolência melancólica que a levava lentamente de novo para o mundo onde circulava. Antes de acordar. Um cansaço mental impedia-a de trabalhar. Nessas ocasiões. E por sms inventava uma desculpa ao chefe que lhe permitisse ficar em casa a fazer ninharias. Lavar roupa à mão. Enfiar missangas em fios. Pequenos arranjos na roupa. Ou grandes tingimentos de casacos com lixívia. Depois prometia a si mesma sair daquela apatia. Sozinha, sem a ajuda de ninguém. Porque simplesmente não valia a pena o esforço do pedido de auxílio. Duvidava que alguém entendesse o que se passava com ela. Nem a psicóloga. Entrava no consultório e sentava-se. Quando ainda tinha vontade dissera à psicóloga que andava a ler um livro em que todas as personagens decidiam repentinamente mudar de vida, deixar os empregos e ir viver em roulottes. A resposta da rapariga fora para que deixasse de o ler pois se tratava de um livro disfuncional. Era apenas a Generation X do Douglas Coupland. Depois deixara o livro e a psicóloga de uma só vez. Nunca mais lera nada. Até ao momento em que se aproximava a data em que lhe fora anunciado pela médica de família que estava com uma depressão. Abril, 21 de 2006. A data do seu vigésimo nono aniversário. De presente uma declaração médica certificando a sua “incapacidade para o exercício da actividade”. Escrever. Era a única coisa que ela sabia fazer. (...) Um ano passara. Entretanto nunca mais recuperara a vontade de ler livros. Apenas manuais de medicina e outra bibliografia médica sobre cancro. Uma doença que atingira a sua mãe e que a fascinava para lá da normalidade leiga. Até ao dia em que se lembrara do conselho da psicóloga e decidira, num acto de rebeldia, encomendar de uma só vez dois livros no Amazon.co.uk. Girl, Interrupted, de Susanna Kaysen e Prozac Nation, de Elizabeth Wurtzel. Contrariar ordens médicas parecia ser das poucas coisas que ainda lhe davam algum prazer. Por isso nas noites de insónia dobrava a medicação para dormir, dobrava os sedativos e de manhã, se tivesse algum trabalho importante a fazer, triplicava os anti-depressivos. Como poderia ele ter a arrogância de achar que alguma vez poderia substituir tão precioso receituário? Era uma pergunta que ela fazia vezes sem conta. (...) Depositara alguma fé em alguns rapazes... apenas uns tempos bem passados e alguma decepção no fim. Com ela eram raras as histórias com final feliz. Só mesmo a pedido se esforçava por escrever alguma. E mesmo assim... a felicidade na ficção dela, tal como na realidade, era sempre muito insossa. O paladar que ela procurava era difícil de encontrar. Talvez por isso procurasse comer sempre fruta vinda de países que nunca visitara. Peras do Chile. Ananás anão da Tunísia. Mangas do Brasil. Se tivesse de repetir um pais, escolhia as papaias de Cuba e os morangos de Espanha. O consolo, vinha por vezes, actos inesperados. Uma compra impulsiva. Um sorriso de um velhote. Uma conversa com um sem-abrigo. Se tinha queda para alguma coisa era para ajudar pessoas necessitadas. De tudo. Dava dinheiro, roupa, comida. Dava o que tivesse vestido se preciso fosse. Não por ser altruísta. Apenas porque isso a fazia sentir útil a alguém. Coisa que era raro sentir fora desses círculos. Imigrantes, arrumadores, velhotes eram vítimas da sua caridade egoísta. Todos os dias. A felicidade vinha certas manhãs em pacotes de seis canetas coloridas a um euro. Podia vir dos raios de sol. Ou simplesmente não vir de lado nenhum. Ao seu estado de tristeza as amigas diziam: esquece e segue. Algo que ela já ouvira da boca dele. Numa tarde, aquela em que ela quis por tudo em pratos limpos e acabou por partir a loiça toda. Ouviu-o dizer que sentia ódio dela. E sempre que sentia amor, olhava para a frente e seguia a vida. A crueldade. Pura. Sentada a sua frente, enquanto ela puxava dos cigarros uns a seguir aos outros. Eram pedaços de memorias que não davam simplesmente para esquecer. Seguir? Para onde? Se ela já tinha seguido para tantos caminhos. Braga, Lisboa, Barcelos, Aveiro, Ponte de Lima, Santiago de Compostela... Sim havia um cesto de frutas ainda para provar. Mas a esta altura o gosto na boca que desejava era o do beijo dele. Precisamente o único gosto que para seu desgosto lhe estava interdito. Era ele, precisamente o fruto proibido, e em conformidade com todos os clichés, o mais apetecido. (...) Nessa tarde, depois de meses de separação recebeu um email dele a perguntar se ela estava bem se os pais dela estavam bem se estava tudo bem... Ficou sem resposta. Sem resposta tinha ficado outro email onde ele lhe enviava o novo número de telemóvel, como se simplesmente a tivesse esquecido de avisar, ao tempo em que avisou todos os outros amigos e amigas. Seguiu para o lixo nessa tarde. Enquanto ela ouvia a música que era dos dois. Um dueto, como eles faziam tão bem. Entre o Bono e a Mary J. Blidge. One. Como eles se sentiam quando faziam amor. Quando perdiam as horas da noite, as da manhã e faltavam aos empregos dando desculpas esfarrapadas enquanto se envolviam nos lençóis. Corpos nus. Persianas fechadas. A noite a durar até o sol se pôr. O levantar apenas para comer e acabar com a secura das bocas. Ávidas de mais beijos. Em que momento abrira ele a persiana e saltara da janela? Ela não sabia. Tinha ficado mergulhada na escuridão daquele quarto. Tempo demais. Ainda lá estava. Dava-se conta disso. E enquanto ele tivera tempo para fazer o luto, namorar, acabar, e andar com a vida para a frente. A vida dela ficara ali parada. O amor. Quando sentia o amor ela ouvia U2, olhava para trás. Para o que tinha perdido. Os tempos perfeitos. Esquecia as discussões. Os ciúmes. As lágrimas. Recordava o essencial. Aquilo que era agora forçada a esquecer. (...)
13 abril

Sleeping Sun's words have made a point

"Eventualmente, a pessoa acaba por cair em si..."

Não há amores-perfeitos?

Dizem-me que não. Mas eu vejo-os todos os dias nos canteiros municipais que sobreviveram à voracidade sizariana. Quem desce a rua de Sá da Bandeira como eu, todos os dias, tem esse privilégio, de ver os amores-perfeitos. Brilhantes ao sol da manhã. Frescos e viçosos. Como pensar que eles não existem se os vejo às centenas? Hoje, porém, apercebi-me que quem me nega tal existência pode ter alguma razão. Aconteceu ao passar por uma loja de artigos de decoração. Situada nessa mesma rua, a montra exibia lindos vasos de amores-perfeitos. Brilhavam à luz da manhã, que fazia reflexo no vidro. Eram lindos. Amarelos como os seus gémeos perfeitos dos canteiros. Entrei na loja pronta a compra-los. E só quando os tive na mão percebi que eram artificiais.

Ambição (Ao Froufe, que me acha uma pessoa pouco ambiciosa)

Ambiciono // a tua boca na minha // a tua voz a chamar-me: Amor // Ambiciono// adormecer com a tua mão no meu cabelo// a tua voz a chamar-me: Amor // Ambiciono// que nenhuma ambição nos separe // o teu olhar pousado no meu corpo // Ambiciono// uma promessa de retorno // ouvir-me chamar-te: Amor //
12 abril

Tu não existes!

Tu nunca exististe. Foste uma invenção minha. Acreditei tanto no que te ouvi dizer sem perceber que estava apenas a ouvir-me a mim própria. Por isso ouvia o que queria.
11 abril

"Sem-forma"

Grito "Ridiculus" e imagino-me a fazer o movimento com a varinha mágica. Mas os meus truques "harrypoterianos" estão a deixar de funcionar. Os "Sem-forma" assumem sempre o teu rosto. Hoje acordei com desejos de ouvir uma música que dançamos numa noite de arraial brasileiro: "Mal Acostumado". Não sosseguei enquanto não a encontrei no YouTUBE. Depois ouvi-a. Ininterruptamente. Recordei cada passo de dança dessa noite em que dançamos ao luar, seguindo todos os estériotipos românticos e patéticos dos apaixonados. Agora grito "Ridiculus" a esses pensamentos, para evitar as lágrimas... Por momentos, imagino que tu não existes. Que não passas de uma personagem das minhas histórias. Mas o "Sem-forma" resiste, a tua imagem persiste. E eu desisto. Deixo-me chorar... "Mal acostumado, você me deixou mal acostumado com o seu amor... então volta, traz de volta o meu sorriso, sem você não posso ser feliz..." "RIDICULUS"!!!!!!!