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    June 30

    Quanto vale um pouco mais de tempo?

    "Quanto vale um pouco mais de tempo?" A pergunta inscrita na embalagem que o delegado de propaganda médica deixou em cima da secretária. Sem que lhe fosse prestada muita atenção, a embalagem servia agora de pouso ao furador.

     "A senhora tem duas lesões no fígado!", disse sem tirar os olhos do processo. Estrela, era a médica menos sorridente do serviço de oncologia, mas havia quem jurasse ser a mais competente. Em conversa, na sala de espera, era também ela a mais comentada. Por causa do seu aspecto extravagante. Madeixas pretas sob cabelo loiro, madeixas vermelhas sob cabelo negro. Uns diziam que tinha estilo, outros, mau gosto. Todos concordavam que a simpatia ou o estilo pouco importava. O importante era a competência. Apesar dos pesares a sua forma de ser transmitia a confiança de quem sabe o que faz e não erra.

     "Pensávamos que era apenas uma, mas afinal são duas!", continuou Estrela. A reacção da paciente foi de resignação. Olhos na mesa, sem reparar nas pinturas de Klimt que a médica tinha afixadas no seu quadro de cortiça. Havia também imensas plantas nos parapeitos das janelas do seu gabinete.

     "Vai fazer 12 sessões de quimioterapia, mas só lhe vou marcar seis, para já!"

    O silêncio da paciente era apenas interrompido por um modesto: "Sim, senhora doutora". Nada mais. Que dizer a não ser seja o que Deus quiser, pensava.

     

    Foto:  Medicine (Hygieia) / 1900 - 07

    June 29

    CIA: não pertenço à Al Qaeda!

    Estava a desabafar com a minha amiga Sonia, que é espanhola, sobre o centralismo burucrático que afecta o nosso país, onde qualquer problema mais simples é apenas resolvido "em Lisboa". O facto de ela ser espanhola ganha relevância por estar a falar de centralismo. E dizia-me ela: "Eu nunca tive de ir a Madrid para resolver um problema!" E eu - que tenho um problema para resolver com o Instituto Nacional da Habitação que apesar de ter uma delegação no Porto, reserva à sede, em Lisboa, o privilégio da resolução dos problemas de todo o país - bradava que havia de me tornar terrorista em resposta a sugestão da Sónia para que ingressasse a política em defesa dos meus ideais. Eis quando me dei conta que, ao escrever a palavra TERRORISTA no messenger poderia ter despertado os pesquisadores da CIA que neste momento já sabem onde respiro e suspiro e estão neste momento a planear obter sobre mim a confirmação de que pertenço a alguma célula da Al Qaeda. Então, desde já informo os senhores da CIA: Eu não pertenço à Al Qaeda. Sou apenas uma portuguesa a fazor da descentralização. Perfeitamente inofensiva para todos, execpto para os senhores do Instituto Nacional da Habitação que vão ter de levar com as minhas reivindicações até que o meu problema seja resolvido.
    June 26

    A Invenção do Amor

    Em letras enormes do tamanho do medo, da solidão, da angústia, um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel numa tarde de chuva, entre zunidos de conversa, e inventaram o amor com carácter de urgência deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana.

    Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis. Apenas o silêncio, a descoberta, a estranheza de um sorriso natural e inesperado.

    Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna. Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta de um amor subitamente imperativo.

     

    "A Invenção do Amor", Daniel Filipe

    June 24

    A causa das coisas

    E o que é que acontece no fim de uma alegria?

    Durante uns dias

    o coração não se deixa  descansar,

    anda como se não fosse nosso,

    fecha-se em volta do objecto

     que já perdeu e recusa-se a aceitar.

    São esses os momentos em que

     o coração é verdadeiro para quem amou.

    Aquela recusa merece a vida. Mas não dura.

    Diz que não pode.

    Mais tarde a necessidade

    da vida de “andar para a frente”

     - expressão horrorosa - toma conta de nós.

     É por isso que o desejo de desfecho

     acompanha o maior amor.

     

    Miguel Esteves Cardoso,

    A Causa das Coisas 

    June 23

    Receita de jovialidade de Pablo Picasso

    Deita fora todos os números não essenciais à tua sobrevivência. Isso inclui idade, peso e altura. Deixa o médico preocupar-se com eles. É para isso que ele é pago. Frequenta, de preferência, amigos alegres. Os de "baixo astral" põem-te em baixo. Continua aprendendo... Aprende mais sobre computador, artesanato, jardinagem, qualquer coisa. Não deixes o teu cérebro desocupado. Uma mente sem uso é a oficina do diabo. E o nome do diabo é Alzheimer. Aprecia coisas simples. Ri sempre, muito e alto. Ri até perder o fôlego. Lágrimas acontecem. Aguenta, sofre e segue em frente. A única pessoa que te acompanha a vida toda és tu mesmo. Mantém-te vivo, enquanto vives! Rodeia-te daquilo de que gostas: família, animais, lembranças, música, plantas, um hobby, o que for. O teu lar é o teu refúgio. Aproveita a tua saúde; Se for boa, preserva-a. Se está instável, melhora-a. Se está abaixo desse nível, pede ajuda. Não faças viagens de remorso. Viaja para o Shopping, para a cidade vizinha, para um país estrangeiro, mas não faças viagens ao passado. Diz a quem amas, que realmente os amas, em todas as oportunidades. E lembra-te sempre de que: A vida não é medida pelo número de vezes que respiraste, mas pelos momentos em que perdeste o fôlego: de tanto rir... de surpresa... de êxtase... de felicidade... Pablo Picasso
    June 14

    Last Destination 3

    Diz o filme que a MORTE tem um plano para cada um de nós. E que chegada a nossa hora só a leitura dos sinais enviados pelo destino nos permite identificar a hora em que a FOICE nos arranca a vida.
    As premonições, as coincidências não existem. Nada acontece por acaso. Há que estar atento. A distração sobre o mínimo pormenor pode ser fatal. De vez em quando há alguém que consegue antever o plano da MORTE. E evitá-lo. Ou pelo menos adiá-lo. Porque a MORTE acaba sempre por rever os seus esquemas. Matando por outros meios quem a enganou fugindo ao plano. Ninguém escapa.
    YOU CAN RUN, BUT YOU CAN NOT HIDE
     
     
    June 13

    Olhinhos azuis 1

    Olhinhos azuis, “da cor do céu”, dizes tu orgulhoso sem saber ao certo o que é o céu, sem saber por que os teus olhos são azuis e não cor-de-rosa, a cor de que tanto gostas. Um dia vão-te ensinar que o céu é um composto de azoto, ozono, oxigénio e dióxido de carbono. Sim, é verdade! E tu vais acreditar, porque quando fores grande já não te vai contentar a resposta que te dou por agora.

    -         O céu é onde mora o Jesus!

    Mas ainda vai levar alguns anos até que compreendas que o céu também não é só ar... e que a resposta que te dava não era mentira. Jesus, esse nome que a mãe dá ao lugar onde te diz que a avó está, esse lugar de longas e brancas pedras todas alinhadas por onde corres, para onde saltas, enquanto a mãe, de joelhos lava a avó e lhe põem flores em cima. Esse lugar das tuas brincadeiras, um dia será o dos teus filhos, mas nessa altura já não será o teu.

    Meu menino lindo, vai levar menos tempo até que te digam que o cor-de-rosa é para as meninas e que te impinjam o azul. Nunca te deixarão ter uma mochila cor-de-rosa para levares para a escola. Veremos como te rirás de tudo isto, daqui a muitos, muitos anos, quando usares camisas e gravatas cor-de-rosa.

    Sorriso matreiro, a dizer “gosto de ti” para que te leve comigo ao café e te dê um gelado cor-de-rosa, o teu preferido... ainda não sabes que é de morango... Será que vais deixar de gostar de mim quando descobrires que te menti? E que na portinha pequenina, feita na parede do corredor do nosso prédio, não mora nenhum gnomo, mas sim o contador da luz?

    Sei que vai ser um choque para ti perceberes por que o teu patinho só fala quando eu estou por perto. E não deve demorar muito até que isso aconteça, sinto que já desconfias de mim... mas quando verdadeiramente confirmares a tua suspeita, vou-te ensinar a falares tu pelo patinho, assim os dois vão poder conversar a sós e já não vão precisar de mim.

    Bebezinho, esses olhinhos azuis que agora encantam os adultos, um dia vão encantar namoradas, nesse dia vou-te contar que quando eras pequenino me beijavas os lábios e dizias satisfeito que eras o meu namorado. Vou ter um desgosto, semelhante ao que o meu avô teve quando lhe apresentei o meu último namorado, aquele de quem agora tens ciúmes e à frente do qual me beijas em tom de desafio e porque nos vês fazer o mesmo e achas graça. Nessa altura, eu já terei envelhecido, não muito, mas alguma coisa... e vou ver incrédula o quanto cresceste... Então vou-me deliciar e contar vezes sem conta as asneiras que fazias, quando ainda te chamava, com razão, bebezinho...

    Felizmente, ainda faltam muitos anos da tua vida que não tenciono perder... e não vale a pena pensar no futuro, não agora que te tenho aqui ao meu colo a querer dormir... o patinho já dorme...

    -         De olhos abertos?, perguntas tu.

    -         Pois ainda não está bem a dormir... está à espera que adormeças!, remendo eu.

    Estás a crescer, é impossível ignorá-lo, começas já a duvidar de algumas coisas que te digo... não tarda muito vais saber que sou eu que falo pelo patinho, e vais saber do contador da luz... Mas isso agora não importa, anda cá, vou-te contar uma história e tu... vais sonhar comigo e com o teu patinho falador.  

     

     

    Texto escrito para o Miguel quando ele tinha 2 anos...

     

    June 12

    Olhinhos azuis

    O Miguel já sabe ler. Pus-lhe na mão uma história escrita para ele há seis anos. "Olhinhos azuis, da cor do céu..."
    - Andreia escreveste estas linhas todas para mim?
    Miguel deu-se ao trabalho de as contar antes de ler, a queda para a matemática é mais forte que a derrapagem nas letras. 
    Meu amor. Luz da minha vida. Quantas linhas escrevi eu para ti nestes oitos anos da tua existência. Tão pequeno e tantas vezes os teus olhos azuis fizerem sorrir os meus castanhos tristes.
    Quando acabou de ler Miguel riu.
    - Eu não faço composições de tantas linhas, Andreia...
    - Eu sei, mas a Andreia escreve muito sobre ti... 
    - Porquê?
    - É a forma que a Andreia tem de dizer que gosta de ti.
    - Gostas?
    - Não vês essas linhas todas?
    - Sim...
    - E então?
    - Realmente, gostas mesmo muito de mim.

    "Siga para tribunal"

    Vimo-nos há dias na estação de Metro do Estádio do Dragão. A festa do costume. O abraço forte e o riso franco. É assim o senhor Carlos, bem disposto, sensível. O senhor Carlos é o pai do Paulo. A lágrima no olho ao ver a rapariga marada que foi sua "nora" durante nove anos. Rimos muito os dois das suas "caralhadas": "Oh filha eu sou mouco, mas não nasci ontem..." Tenho saudades do seu célebre: "Siga para TRIBUNAL!", tão apropriado à sua profissão de agente da PSP. Perguntei-lhe pela esposa.
     
    - Oh filha as mulheres chegam a uma idade e ficam malucas... é a menopausa..., respondeu ele sempre descontraído.
    - Se calhar é falta de sexo!, segui eu no mesmo tom.
     
    Ele dá umas boas gargalhadas e a lágrima volta ao olho. Talvez a saudade também das minhas "caralhadas". Ditas à mesa de tantos almoços e jantares, de família ou não. Talvez a recordação daquela "discussão" com o "tio Mário" mesmo em cheio no dia do seu aniversário, quando eu ripostei a minha opinião contra a do cunhado à mesa com a família toda a assistir. E ele, o senhor Carlos, a sair logo em minha defesa. Talvez a lembrança da cena do cão do "tio Mário" a perseguir-me durante um fim-de-semana inteiro passado em família no Gerês e eu a pensar numa maneira de ir ao focinho do animal.
     
    - É falta de sexo é. Eu bem lhe tenho dito que ela anda a faltar aos treinos, mas ela não quer crer.
    - Também lhe fazem falta a si os treinos, olhe essa barriga!
     
    Novas gargalhadas. Mais um abraço. E mais uma lágrima. Não de tristeza, mas de saudade.
    June 11

    No sofá azul

    A vida em resumo num sofá azul.
    A vida perdida.
    A vida encontrada.
    A vida fodida
    A vida tão amada.
    A vida discutida entre risos e olhares ternurentos.
    A vida pueril.
    A vida a dois.
    A vida desejada.
    A vida conseguida.
    A vida roubada.
    A vida achada.
    A vida desencontrada.
    A vida conversada como quem come cerejas.
    A vida despida.
    A vida desmentida.
    A vida explicada.
    A vida sem mais nada.
    June 07

    Morre lenta, lentamente como quem se mata assim...

    Muere lentamente

    Pablo Neruda

    Muere lentamente quien se transforma en esclavo del hábito, repitiendo todos los días los mismos trayectos, quien no cambia de marca, no arriesga vestir un color nuevo y no le habla a quien no conoce.

    Muere lentamente quien evita una pasión, quien prefiere el negro sobre blanco y los puntos sobre las "íes" a un remolino de emociones, justamente las que rescatan el brillo de los ojos, sonrisas de los bostezos, corazones a los tropiezos y sentimientos.

    Muere lentamente quien no volte a la mesa cuando está infeliz en el trabajo, quien no arriesga lo cierto por lo incierto para ir detrás de un sueño, quien no se permite por lo menos una vez en la vida, huir de los consejos sensatos.

    Muere lentamente quien no viaja, quien no lee, quien no oye música, quien no encuentra gracia en sí mismo.

    Muere lentamente quien destruye su amor propio, quien no se deja ayudar.

    Muere lentamente, quien pasa los días quejándose de su mala suerte o de la lluvia incesante.

    Muere lentamente, quien abandona un proyecto antes de iniciarlo, no preguntando de un asunto que desconoce o no respondiendo cuando le indagan sobre algo que sabe.

    Evitemos la muerte en suaves cuotas, recordando siempre que estar vivo exige un esfuerzo mucho mayor que el simple hecho de respirar.

    Solamente la ardiente paciencia hará que conquistemos una espléndida felicidad.

    June 05

    De França, com Amor

    Telefonaste e por momentos tivemos as vozes suspensas pela emoção.
     
     - Andreia!
    - Marta!
     
    Marta, a minha amiga "Marta da França", como a baptizou a minha mãe quando ela imigrou atrás do amor da sua vida.
     
    - Marta, estive a tarde toda a conter as lágrimas e agora vou chorar...
     
    Tão bom ouvir a voz de alguém que nos é tão querido. A distância suprimida. A vida de mais de dois anos não contada revelada em breves palavras. Uma conversa adiada até ao reencontro, olhos nos olhos.
     
    - Vamos precisar de seis dias juntas para por a conversa em dia, três para mim e três para ti!
     
    A Marta tem a minha idade. Andou comigo na escola secundária. Com ela fiz as minhas primeiras saídas nocturnas rumo à Ribeira. Foi no ombro dela que babei o desgosto da minha primeira ilsusão. Foi com ela que fiz planos empresariais de montar um negócio de venda de jarras. Juntas fumamos os nossos primeiros cigarros de tabaco de enrolar, apanhamos as primeiras bebedeiras...
    A Marta. A minha mãe achava que a Marta me desencaminhava. Dizia que a Marta me levava para maus caminhos. Um dia a Marta apaixonou-se e casou. Foi para França estudar para estar com o seu marido e teve dois filhos, o Samuel e a Matilde. A minha teve de torcer a língua. Agora, desejaria que eu tivesse seguido o "mau" caminho da Marta. Mas não. Eu fui por outro caminho. Juntas galgamos os anos. Universidade. Emprego. E dez anos depois das nossas vidas terem tomado rumos tão diferentes heis que se tornaram tão parecidas.
     
    - O Jun diz que a realidade não existe. Com uma pessoa assim não se pode conversar...
    - Sabes Marta, às vezes também acho que a minha vida é surreal...
    -Sim, mas sabes que ela existe. Existe o quotidiano, a casa para pagar, o emprego, as contas...
     
    O quotidiano é muito cruel para os idealistas. No quotidiano existem problemas difíceis de enfrentar. Há pessoas que amamos, mas que  não nos entendem. No quotidiano somos vistos pela aparência.
     
    - Vem para cá!
    - Ás vezes apetece-me entrar num comboio e partir. Mas não sei para onde.
    -Vem para cá!
    - Há uns tempos fui a Barcelos ter com uma amiga... sabes... sentir aquela sensação de não estar em parte nenhuma, é por isso que gosto da viagem. Adoro as partidas. Odeio os retornos. O meu ideal seria estar sempre em trânsito. Tenho tanta vontade de me meter num comboio e desaparecer. 
    - Vem para cá! 

    Agradecimentos

    Meus queridos, minhas queridas,
     
    Ontem não dormi. Estive a pensar em cada um de vocês e na forma como me têm ajudado viver este momento tão difícil da vida da minha família. A pensar em vocês e numa maneira de vos mostrar o quanto tenho apreciado cada gesto, cada palavra, cada minuto da vossa atenção, decidi fazer esta "lista pública de agardecimentos"...
     
    Angela (Gi) - Pela forma como abriste o teu coração em relação à doença  que abala a minha e também fez partir a tua mãe e por, na tua dor, encontrares as palavras para amenizar a minha. Pelos Girassóis.
     
    Claudia - Por me dizeres que agirias exactamente como eu, abdicando da minha vida para dar atenção à pessoa que me fez nascer para a vida. Por me mostrares o outro lado do amor.
     
    Couto - Pelas horas tardias, em que depois do trabalho, ainda arranjas tempo para me "arrancar" de casa, para passares a noite a ouvir-me falar de cancro.
     
    Filipe - Pelos convites que continuas a fazer para me arrancar ao meu habitual isolamento, apesar de eu não ser muito educada e nem sempre te responder.
     
    Isaac - Pelo apoio e as palavras de conforto à distância de um "clik", pelas vezes sem conta em que puseste a vossa casa ( também da Gi) à minha disposição.
     
    Ivo - Pelos momentos de paixão e de imprevisto que me fizeram esquecer um pouco a realidade.
     
    Jorge - Por todos os teus telefonemas e pelos teus silêncios enquanto te abalroo com os meus problemas.
     
    Marta - Pela paciência, pelas lágrimas enchugadas, pelas palavras maternais, pela atenção, pela compreensão.
     
    Paulo - Por na tua nova vida não te esqueceres de mim e da minha família e ainda arranjares tempo para um telefonema, uma mensagem, um pequeno-almoço.
     
    Sandrina - Pelos telefonemas tão dispendiosos do Luxemburgo para saberes de mim e da minha mãe.
     
    Sonia - Por me lembrares que eu sou uma boa pessoa, que já fui feliz, já carreguei o mundo nos ombros com um sorriso e  posso voltar fazê-lo.
     
    Verónica - Por tantas horas que me dedicas, pela orientação psicológica que me dás, pelas tardes a beber superbock tango e a ver a Ally Macbell.
     
    Obrigada a todos. Guardo-vos no meu coração.
     
     
     
     
     
     
    June 04

    Sete anos são dois dias

    Faz sete anos.
    As palavras que pedi que escrevessem na tua lápide permanessem no meu coração mais marcadas do que nunca.
    "Partiste, mas deixaste em nós tudo o que és!" Há uma recusa permanente em aceitar a tua ausência.
    Como se o vazio fosse tão insuportável que apenas me restasse pensar que te vou encontrar sentado na tua cadeira de lona. A que gostavas de abrir na sala, contra a vontade da avó. A cadeira onde eu me sentava mal tu te levantavas para fazer qualquer coisa. Eu sentava-me à pressa e para te aferroar sorria: "Quem foi ao mar perdeu o lugar!" E tu com os dedos fingias querer agarrar a minha língua de troça: "Foste ao mar vô, perdeste o lugar!" Essa será a minha herança mais querida.
    A tua cadeira de lona às riscas vermelhas e laranjas. Um dia ela estará na minha sala. Nesse dia vou chorar. E desejar que tu voltes do mar e recuperes o teu lugar!
     
    June 02

    No divã sentada e de olho na porta de saída

    Entrei no gabinete. Sentei-me à frente de uma sujeita de blusa de alcinhas rosa e laranja, óculos de hastes vermelhas e sorriso de quem se prepara para ouvir alguém que não sabe o que diz.
     
    - Eu não sou a doutora Adelaide..., começou a psiquiatra.
    - E quem é a Adelaide?, perguntei eu sem perceber porque é que uma médica psiquiatra começava por dizer quem não era, antes de dizer quem era. Seria algum sintoma de esquizofrenia? Não perguntei. Pus um sorriso de terapeuta a condizer com o cenário.
    - A doutora Adelaide é a sua médica, eu não vou ser a sua médica.
     
    Pensei, então se esta fulana não vai ser a minha médica de que serve estar a falar com ela sobre os meus problemas se vou ter de repetir, mais trade, o mesmo discurso à "verdadeira" médica. Enfim, fiquei logo possuída.
     
    - Porque é que não me adiaram a consulta?
    -Não se preocupe com isso, diga-me o que a traz por cá?
     
    O meu sorriso de terapeuta fugiu a sete pés. Para o seu lugar entrou a minha cara de estupefacção. Apeteceu-me dizer, olhe vim aqui gastar o meu precioso tempo e dar cabo da boa disposição que trazia para olhar para a sua cara de parva! Mas não disse. Tive de me conter. Receei que entrassem pela porta dois ou mais enfermeiros com a camisa de forças e uma injecção para me acalmar.
     
    - Vim cá porque a minha médica de família achou por bem que viesse, respondi secamente, sem acrescentar muitos pormenores.
    - Hum, estou a ver..., murmurou ela olhando para um papel, talvez o fax enviado pelo Centro de saúde.
     
    O que é que ela via? Segundos depois de me ter colocado essa pergunta a resposta surgiu:
     
    - Não estou a ver nada escrito aqui. Afinal a sua médica de família mandou-a para cá porquê?
    - A minha mãe tem cancro e eu estou a passar uma fase difícil.
    - Hum, estou a ver...
     
    Percebi que mais uma vez ela não via nada de jeito e eu, como ela não era a Adelaide, não tive pachorra para entrar em detalhes. Ainda a ouvi dizer mais qualquer coisa a respeito de não sei quê, mas heis que o telemóvel dela começa a tocar "Asereje, ja deje tejebe tude jebere sebiunouba majabi an de bugui an de buididip",  o sucesso do verão de dois mil e poucos das cantoras filhas do Tomate as Ketchup.
     
     Ela atendeu... riu... e virada para mim desabafou:
     
    -  É a minha filha, diz que foi parada por uma operação STOP, coitada tem a carta de condução há um ano e já foi parada nove vezes.
     
    Tive vontade de a mandar à merda, mas o medo da camisa de forças voltou a falar mais alto. Pus de novo o meu sorriso de terapeuta e fiz um voto de silêncio. Ela retomou o assunto da consulta. Mas eu já estava a imaginar os corpos esbeltos das cantoras latinas e tinha desligado. Não me lembro de mais nada. Saí do gabinete à pressa. Chocada. Revoltada. Cada vez me parece mais ténue a linha entre a sanidade e a demência.