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27 junio

Viúva alegre

Rezava todos os dias para que Deus levasse o marido à sua frente. Queria ter uns anos de paz antes de morrer. Um dia as suas preces foram ouvidas. O marido, bateu a bota, esticou o pernil, deu o peido mestre. Em suma: morreu. De morte natural.
Depois de anos a aturar um "homem de vinho" que chegava a casa e partia tudo. Herminía estava agora viúva, e feliz! Saía cedo e bem arranjada em direcção ao café. Meia de leite e uma torrada. E pensar que, quando o falecido era vivo, ela nem podia ir ao café.Todas as noites, era quem a visse ir levar o lixo aos latões e a esgueirar-se até ao balcão do café. Para num segundos tragar o cimbalino e voltar ligeira a casa. Antes que o marido cismasse que ela tinha fugido com o contentor e saísse de casa em sua busca. Anos. Uma vida de sobressalto agora deixada para trás, com a Graça de Deus!
24 junio

Post-it to Heaven, notes from Hell

Do inesperado surge a lembrança. Volto a tropeçar nas tuas memórias. Sinto a tua ausência como um empurrão que me atira para um lamentar de impossíveis. Surreal. Agarro-me às imagens que deixaste de ti pela web. Presenças falaciosas. Recordo o email enviado pelo teu amigo anunciando a tua morte. "Isto não é uma brincadeira...", começava assim. Deixei passar os meses sem me convencer que de facto não era uma brincadeira. Olhava para o rosto do teu irmão tão semelhante ao teu... e preferia imaginar-te em viagem. Apenas distante, mas nunca ausente. Agora há alguém que apenas viaja e que eu já imagino morto. Minimizo. Contigo desejei a distância em vez da morte. Estranho desta vez preferir a morte à mera distância.
21 junio

Arrumar, arrumar até me fartar!

Continuo com a árdua tarefa de reduzir a quantidade de pertences tenho, em conta da falta de espaço da minha nova casa. Ando de ressaca da privação do cloridrato de paroxetina anidro and it sucks! A desintoxicação inclui súbitos estados de choro de 7 minutos, o chamado lusco-fusco depressivo. Ataques vorazes de fome de pacotes de batata frita. Compensados com salada de tomate e cebola temperados com azeite, vinagre e gomásio, duas vezes ao dia. Banhos de água fria a meio da noite, porque acordo submersa em suor quase dia sim dia não. Inclui também bastante leitura de livros de auto-ajuda, já sabem que não curto incomodar ninguém... E, ocasionalmente alguns episódios da Ally McBeal, com quem me identifico cada vez mais. Só lamento que o electricista que andou cá em casa a arranjar o curto-circuito em que estava o quadro, não fosse tão giro como o canalizador (interpretado pelo Bon Jovi) que lhe andou a desentupir os canos. Sobre a minha "Toca", assim se chama o alojamento substituto do "Casarão", it's amazing! Falta o mini-forno para a minha tradicional lasanha e depois disso, a Toca estará perfeitamente equipada! Por isso, aos que têm perguntado pela inauguração, be patiente!
20 junio

Between the devil and the deep blue sea

 
when we met i knew you had something
weren't your stories about your crazy living
nor your promises of a golden ring
  
telling lies to impress
have I ask you for fairy tales?
of wild worses and deserts...
lots of money spent on easy way?
guess what?
 
I love to work anyway
hate people who are rich
baby, I'am a communist
I read Marx and Lennine!
 
don't wan't a Chanel neckless
hate all your messes
 
though you win my heart with this nonsence?
it was yours on the first night and you didn´t notice
 
 
 
 
 


19 junio

R (e) viver o cancro

Xarope Montariol, era o assunto do email desconhecido que foi parar ao junk. Inês, a remetente, viu na Internet o meu apelo por informações sobre o xarope que é conhecido por ter uma acção benéfica em doentes que estão em tratamento de quimioterapia contra o cancro.
É feito num mosteiro, em Braga. Dizem que leva um composto de aloe vera. Mais não sei. Respondi a Inês que lhe arranjaria os contactos. Tal como eu já o fiz, ela procura qualquer ajuda para um amigo que luta contra um cancro no figado. Informo a Inês, que não conheço, como o Helder, um rapaz que na altura respondeu ao meu apelo por ja ter tido cancro e ter ele próprio experimentado o xarope, fez comigo. Mais um conselho: a leitura de um livro "Anti-Cancro", um novo estilo de vida, de David Servan- Schreiber. Escrito por um médico a quem diagnosticaram há 15 anos um cancro fatal e que desde aí percorreu o mundo á procura de remédios ancestrais no mundo oriental e com propriedades anti-canceríginas. Um livro que põe em realce as últimas descobertas científicas sobre o cancro e que o explica como nunca vi explicado. E, eu li muito sobre a matéria.
18 junio

Between the devil and the deep blue sea

 
i 'll bury you in the desert of your lies
undress my body from your eyes
my spill tears couldn't stop the dry
 
 
17 junio

Ao Jota que faz hoje 22 anos

Wonderful, Gary Go

The person that you were has died
You've lost the sparkle in your eyes
You fell for life - into its traps
Now you wanna bridge the gaps
Now you wanna bridge the gaps
Now you want that person back

And all your amunition's gone
Run out of fuel to carry on
You don't know what you wanna do
You've got no pull to pull you through

Say "I am"
Say "I am"
Say "I am wonderful"

Say "I am"
Say "I am"
Say "I am wonderful"

If what you've lost cannot be found
And the weight of the world weighs you down
No longer with the will to fly
You stop to let it pass you by
Don't stop to let it pass you by
You've gotta look yourself in the eye

Say "I am"
Say "I am"
Say "I am wonderful"
Oh you are

Say "I am"
Say "I am"
Say "I am wonderful"

Cause we are all miracles
wrapped up in chemicals
We are incredible
Don't take it for granted, no
We are all miracles
Oh we are

Say "I am"
Say "I am"
Say "I am wonderful"
Oh you are

Don't take it for granted, no
We are all miracles
wrapped up, yeah we're wrapped up
Oh we are wonderful

13 junio

A Arte da Simplicidade

Começo o dia com vontade de simplificar. Elimino a parte de cerâmica das saboneteiras. Deixo apenas a parte escorredora de alumínio.
 
Abro o guarda-vestidos embutido e sou acometida por uma vontade avassaladora de eliminar cabines e casacos. Talvez dê, talvez os venda para a semana na Feira da Vandoma, se conseguir até lá suportar o espaço que ocupam, no chão da sala.
 
Encerro quatro contas de email, uma que até não me pertence, mas à qual tenho acesso com autorização do utilizador. Simplifico assim a minha vida e a dele. Sem que ele me autorize, mas essa é outra questão.
 
Minimizo. Estou cada vez mais adepta do minimalismo. Parto loiça. Casualmente, entenda-se. Mas aproveito alguns desastres naturais para me sentir menos culpada para deitar fora essas coisas que me atrapalham.
 
Reescrevo as notas mais importantes da agenda número 3 para a agenda número 2, na esperança de, em alguns dias, poder também eliminá-la e ficar apenas com a número 1.
 
Retiro fotografias e láminas de quadros de pintores favoritos das molduras para delas poder prescindir. 
 
Redirecciono fotos do álbum preto apenas para o que a Marta me deu há anos, que é reciclável e um dia pode vir a ser deitado fora, juntamente com o seu conteúdo no contentor azul.
 
Retiro três livros da mesinha de cabeceira (entenda-se do cesto de cabeceira, pois dei as duas mesinhas por me estorvarem no novo quarto), e deixo apenas um: "A Arte da Simplicidade", de Dominique Loreau. Livro que lerei até ao fim, sem que outro se lhe retire tempo de leitura, entretanto. 
 
O último passo será a simplificação emocional. A mais difícil e contudo a mais desejada. Por agora adiada.
 
Entretanto, parto para o cancelamento do Hi5 e do Facebook. Fica a faltar, apenas por agora, o cancelar de um dos meus dois números de telemóvel. 
 
Como é simples, simplificar!
 
03 junio

Entre os destroços, os desabafos da minha mãe

Uma folha branca dividida a meio por um risco. De um lado: O que gosto de fazer; do outro: O que não gosto. Uma tentativa de ajudá-la a lidar com a raiva e a revolta pela doença. Uma sugestão de abordagem da minha grande amiga, a Verónica, que é psicóloga. Não sei precisar a data do papel... Mas as respostas da minha mãe estão lá escritas pela mão dela. E trazem saudades, até da sua letra manuscrita. Os desabafos da minha mãe, entre os destroços da minha casa...
 
O que gosto de fazer
 
Gosto de ir às compras, mas não tenho dinheiro para gastar.
Gosto de sair com a Andreia.
Gosto de ir comer fora.
Gosto de ver novelas, o telejornal e futebol.
 
O que não gosto de fazer
 
Não gosto de arrumar a casa.
Não gosto de ver filmes que era uma coisa que eu gostava, não é não gostar é não me apetece.
Sair sozinha, não gosto.
Não gosto de cozinhar, talvez por não me apetecer comer.
Não me apetece tomar banho, nem vestir.
Não gosto de sair com o meu marido porque me stressa.
Não gosto de guardar a comida, deito tudo fora, coisa que não fazia, talvez por eu ter feito isto tudo e não ter sido nunca apreciada.
 
 

Mudanças

Bato a porta pela quinta ou sexta vez. Não será a última. Talvez a penúltima. Porque me pedem a chaves do apartamento. É difícil fechar a porta de vez. A casa está vazia. Resta o pó. Alguns destroços pelo chão. Pouco identificativos do que entre paredes se viveu. Ou foi vivendo, últimamente mais no gerúndio, menos no imperativo. Deixo uns desenhos na parede a tinta da china. Levo memórias. Que espero que se apaguem à falta do contexto habitacional em que foram geradas. Nem todas. Guardo algumas. Como? Guardo como um ficheiro de texto, não como imagens. Porque simplesmente ocupam mais espaço. E espaço é coisa que agora não tenho. Nem físico. Nem emocional. Não há espaço nem para o vazio. Não há espaço para aceitar críticas nem conselhos. Não há. Pouco sobra para me guardar a mim. Volto hoje, para a despedida. Fazer o quê? Uma última limpeza. Do pó que deixei para trás. Devolvo a casa como a recebi. Vazia. Mas com o meu cheiro entranhado.