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    July 30

    Já percebi, chato do carago

    Já lhe rapei o cabelo. Pronto. Sou neta de barbeiro, tenho jeito. Já percebi onde querias chegar. Omnipotente como és, percebeste claramente que eu era a única pessoa capaz de a atravessar por este deserto com algum humor negro, umas piadas sobre o crematório, mais umas piadas sobre a sua ida para o convento, para estrear o novo penteado e o CD dos Super-Dragões a tocar. Já percebi, CHATO do carago! Mas tou fodida CONTIGO! Esta já passei, mas tens mais alguma aí nessa tua divina manga? Estou cansada. Pega lá em mim ao colo e guia os meus passos até casa. E já agora, ajuda-me a escrever os textos que devia ter entregue na sexta e faz com que o meu chefe me páre de ligar para o telemóvel que essa merda tá-me a irritar profundamente. Já não se pode rapar um cabelo a uma mãe em paz?
     
    Andreia Raquel Amaral Pereira Borges Lobo

    Reclamação

    Venho por este meio pedir-TE umas tréguas. Como é? Lá por a minha prima Linda achar que eu sou um TEU soldado, vais-ME deixar assim a sofrer desta maneira. Deixa-TE dessas merdas. Assume alguma responsabilidade. Trata dela. Vais-ME obrigar a ter de lhe rapar o cabelo? Não achas que já ando no meu limite? Tens ideia do quão surrealista esta merda está? Agora sou cabeleireira? O que é que andas a fazer, ora diz? Só vejo as minhas pegadas na areia. Não era suposto nesta altura andares comigo ao colo? Não é essa a tua missão? Então anda lá com essa merda, que o teu soldado está a perder a guerra! Mexe-TE e rápido.
     
    Andreia Raquel Amaral Pereira Borges Lobo 
    July 25

    A Estrela também se engana

    Tinha-lhe dito que desta vez lhe iria cair o mesmo cabelo que da primeira. Quase nenhum. Mas nesta manhã enquanto tomava banho ela deu por si a lavar madeixas soltas embrenhadas  nas mãos. O horror envadiu-lhe o corpo. Estrela, errou. Desta vez o cabelo vai cair todo, e se na outra vez o medo era certo, e o esperado não aconteceu; agora o inesperado tornou o facto bem pior.
     
    July 24

    Com a Salsa no sangue

    RICKY MARTIN LA BOMBA! ES UNA BEBIDA QUE VA CAMBIANDO TU VIDA UNA GOTIDA DE NADA TE VUELVE LOCA LOCA DIVERTIDA AGUA DE RISA CON UNAS GOTAS DE ROSA Y UNA ACEITUNA SABROSA Y EN LO CALIENTE ESA ES LA BOMBA MUEVETE MAMITA QUE ME VUELVO LOCO EMBORRACHADITA DE LA BOMBA ESTÁS COSA LINDA COSA MONA SUBE SUBE, QUE LA BOMBA VA BUM BUM DANDO MEDIA VUELTA BUM BUM OTRA VUELTA MÁS BUM BUM Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS. MUEVELO, MUEVELO DANDO MEDIA VUELTA BUM BUM OTRA VUELTA MÁS MUEVELO, MUEVELO Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS. QUE NOCHE CON VIDA INTENSAMENTE VIVIDA TE VAS QUEDANDO COLGADA INOFENSIVA PURA ENAMORADA MIRA GUAPA SALE VOLANDO LA ROPA SIGUE BAILANDO LA LUNA LUNA GATUNA ESA ES LA BOMBA MUEVETE MAMITA QUE ME VUELVO LOCO EMBORRACHADITA DE LA BOMBA ESTÁS COSA LINDA COSA MONA SUBE SUBE, QUE LA BOMBA VA MUEVELO, MUEVELO, DANDO MEDIA VUELTA BUM BUM OTRA VUELTA MÁS MUEVELO, MUEVELO, Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS. MUEVELO, MUEVELO, DANDO MEDIA VUELTA BUM BUM OTRA VUELTA MÁS MUEVELO, MUEVELO, Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS. MUEVETE MAMITA QUE ME VUELVO LOCO EMBORRACHADITA DE LA BOMBA ESTÁS COSA LINDA COSA MONA SUBE SUBE, QUE LA BOMBA VA QUE NOCHE CON VIDA INTENSAMENTE VIVIDA TE VAS QUEDANDO COLGADA INOFENSIVA PURA ENAMORADA MIRA GUAPA SALE VOLANDO LA ROPA SIGUE BAILANDO LA LUNA LUNA GATUNA ESA ES LA BOMBA MUEVELO, MUEVELO, DANDO MEDIA VUELTA BUM BUM OTRA VUELTA MÁS MUEVELO, MUEVELO, Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS. MUEVELO, MUEVELO, DANDO MEDIA VUELTA BUM BUM OTRA VUELTA MÁS MUEVELO, MUEVELO, Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS. MUEVELO, MUEVELO MUEVELO, MUEVELO MUEVELO, MUEVELO MUEVELO, MUEVELO MUEVELO, MUEVELO DANDO MEDIA VUELTA OTRA VUELTA MÁS Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS MUEVELO, MUEVELO DANDO MEDIA VUELTA OTRA VUELTA MÁS Y EN CADA ESQUINA NENA DAME MÁS. MUEVELO, MUEVELO
    July 23

    Nothing, Depeche Mode

    Será que conheces a música? Saberás que é umas das minhas preferidas, ou tudo não terá passado de nothing... aqui fica a letra...
     
    Nothing
     
    Sitting target
    Sitting waiting
    Anticipating
    Nothing
    Nothing

    Life
    Is full of surprises
    It advertises
    Nothing
    Nothing

    What am I trying to do
    What am I trying to say
    Im not trying to tell you anything
    You didnt know
    When you woke up today

    Sitting target
    Sitting praying
    God is saying
    Nothing
    Nothing

    Always
    Knows the prospects
    Learnt to expect
    Nothing
    Nothing

    Try walking in my shoes, Depeche Mode

    I would tell you about the things
    They put me through
    The pain Ive been subjected to
    But the lord himself would blush
    The countless feasts laid at my feet
    Forbidden fruits for me to eat
    But I think your pulse would start to rush

    Now Im not looking for absolution
    Forgiveness for the things I do
    But before you come to any conclusions
    Try walking in my shoes
    Try walking in my shoes

    Youll stumble in my footsteps
    Keep the same appointments I kept
    If you try walking in my shoes
    If you try walking in my shoes

    Morality would frown upon
    Decency look down upon
    The scapegoat fates made of me
    But I promise you, my judge and jurors
    My intentions couldnt have been purer
    My case is easy to see

    Im not looking for a clearer conscience
    Peace of mind after what Ive been through
    And before we talk of repentance
    Try walking in my shoes
    Try walking in my shoes

    Youll stumble in my footsteps
    Keep the same appointments I kept
    If you try walking in my shoes
    If you try walking in my shoes
    Try walking in my shoes

    Now Im not looking for absolution
    Forgiveness for the things I do
    But before you come to any conclusions
    Try walking in my shoes
    Try walking in my shoes

    Youll stumble in my footsteps
    Keep the same appointments I kept
    If you try walking in my shoes

    Now Im not looking for absolution
    Forgiveness for the things I do
    But before you come to any conclusions
    Try walking in my shoes
    Try walking in my shoes

    Youll stumble in my footsteps
    Keep the same appointments I kept
    If you try walking in my shoes
    Try walking in my shoes
    If you try walking in my shoes
    Try walking in my shoes

    Sobre a depressão 2

    A luta continua... cerveja tango e rua!
    Telefono ao Couto a chorar.
    - Não vou sair hoje com vocês, não me sinto bem... 
    Há tardes em que a tensão se acumula do nada, normalmente ao fim-de-semana, talvez seja um acumular da semana que vai sendo silenciado pelo trabalho, os afazeres, mas que ao menor minuto de descanso surge irremediavelmente avassalador e se transforma numa vontade incontroláve lde chorar.
    - Menina, anda daí, passo por tua casa daqui a pouco...
    - A sério...
    - Vá, arranja-te lá, vamos lá beber umas tango.
    Os rapazes são impecáveis. Acho que são muito menos "apanhados" nas depressões à custa da cerveja. O Filipe diz que não:
    - As raparigas exteriorizam mais o que sentem, nós não... é só isso. Não quer dizer que os rapazes não tenham depressões, apenas não falam delas abertamente como tu estás a falar.
    Tenho necessidade de "falar" ou melhor de escrever, para evitar andar sempre a falar.
    - Estás muito repetitiva, disseram-me certa vez.
    Por causa dessa frase tentei fingir o mais possível que estava tudo bem. Nem sempre resulta...
     
    A minha mãe pede-me que veja se tem cabelos nas costas. Vejo que tem imensos. A quimio-terapia está a ser muito mais forte desta segunda vez. Talvez perca todo o cabelo. Ela não está preparada. Enquanto come leva às mãos à cara. Tem a boca cheia de afetas e a ingestão de qualquer alimento, por mais líquido que seja, provoca-lhe um sofrimento atroz. Chora ao comer. Tem fome. E não consegue meter nada à boca. Dói-lhe a garganta. É tudo da quimio, dizem as enfermeiras. Sabemos bem, mas não há palavras de conforto. Não há factos abonatórios. NADA.
     
    FINGIR? SIM, posso fingir um sorriso de quando em vez. Ou, posso beber superboc tango até ao vómito e chegar a casa e meter três ansiolíticos pela goela a baixo e dormir!
    É mau? É péssimo.
    - Não te estamos a "atacar", diz o Filipe ao ver que perco a paciência...
    Eu sei meu querido... Vocês têm sido impecáveis.
    Desculpem se me irrito. Se vomito. Se bebo até dizer disparates.
     
    Try walking in my shoes, Youll stumble in my footsteps Keep the same appointments I kept If you try walking in my shoes ... Depeche Mode

     

    cancelaram o concerto... é tudo o que tenho para dizer...


     
    July 21

    Sem explicação (3)

    On The Turning Away

    Pink Floyd

     

    On the turning away

    From the pale and downtrodden

    And the words they say

    Which we won't understand

    "Don't accept that what's happening

    Is just a case of others' suffering

    Or you'll find that you're joining in

    The turning away It's a sin that somehow

    Light is changing to shadow

    And casting it's shroud

    Over all we have known

    Unaware how the ranks have grown

    Driven on by a heart of stone

    We could find that we're all alone

    In the dream of the proud

    On the wings of the night

    As the daytime is stirring

    Where the speechless unite

    In a silent accord Using words you will find are strange

    And mesmerised as they light the flame

    Feel the new wind of change

    On the wings of the night

    No more turning away

    From the weak and the weary

    No more turning away

    From the coldness inside

    Just a world that we all must share

    It's not enough just to stand and stare

    Is it only a dream that there'll be

    No more turning away?

    Modern Life

    Uma figura feminina de telemóvel numa mão, agenda na outra. Sobrancelha rebaixada, lábios cerrados. Mala de alça pequena pousada no pulso esquerdo. Pasta à tira-colo no ombro direito. Sacos de compras pelos dois cotovelos. Papéis debaixo do braço. Anel de não comprometida no mindinho esquerdo. Fato roxo. É assim a vida moderna.

    Qualquer coisa só para me sentir melhor...

    Just Feel Better (feat. Steven Tyler) She said I feel stranded And I can't tell anymore If I'm coming or I'm going It's not how I planned it I've got a key to the door But it just won't open And I know, I know, I know Part of me says let it go That life happens for a reason I don't, I don't, I don't Because it never worked before But this time, this time I'm gonna try anything to just feel better Tell me what to do You know I can't see through the haze around me And I do anything to just feel better And I can't find my way Girl I need a change And I do anything to just feel better Any little thing that just feel better She said I need you to hold me I'm a little far from the shore And I'm afraid of sinking You're the only one who knows me And who doesn't ignore That my soul is weeping I know, I know, I know Part of me says let it go Everything must have a season Round and round it goes And every day's the one before But this time, this time I'm gonna try anything that just feels better Tell me what to do You know I can't see through the haze around me And I do anything to just feel better I can't find my way God I need a change And I'd do anything to just feel better Any little thing that just feel better I'm tired of holding on To all the things I ought to leave behind, yeah It's really getting old, and I think I need a little help this time!
    July 20

    Decepção

    do Lat. deceptione, engano s. f., acto ou efeito de enganar; surpresa desagradável; logro; desilusão.
    July 19

    Sonhos

    - Diz-me, velho, acreditas em sonhos?
     
    O velho parou e sorriu. Os seus olhos, que iam perdendo o azul dos mares do Sul, brilharam um pouco e, por momentos, pareceram mais jovens:
     
    - Foi um sonho que me levou a percorrer os mares. Foi um sonho que me levou a longes terras. Fui rico e tudo perdi. Capitaneei um grande barco e acabei cativo. Fui feliz e agora estou só. Mas tenho o coração a transbordar de recordações.
     
    O Tesouro do Castelo do Rei, Anabela Mimoso e João Caetano, Ambar.

    Venho por este meio

    Venho por este meio, porque não tenho outro.
    Venho por este meio comunicar que nada tenho a dizer.
    Venho por este meio comunicar que amanha será outro dia igual aos demais.
    Venho por este meio comunicar que amanhã, dia 20, estarei aqui neste lugar a fazer o mesmo que agora.
    Venho por este meio comunicar que amanhã, dia 20, pelas...  já me esqueci as horas, estarei longe, bem longe da televisão.
    Venho por este meio comunicar que não gostei de ser comunicada por este meio, teria preferido outro. 

    Sem explicação (2)

    Marisa Monte - Amor I Love You
     Marisa Monte / Carlinhos Brown

    Deixa eu dizer que te amo
    Deixa eu pensar em você?
    Isso me acalma 
    Me acolhe a alma
    Isso me ajuda a viver
    
    Hoje contei pras paredes
    Coisas do meu coração
    Passiei no tempo
    Caminhei nas horas
    Mais do que passo a paixão
    
    É um espelho sem razão
    Quer amor fique aqui?
    
    Deixa eu dizer que te amo
    Deixa eu gostar de você
    Isso me acalma 
    Me acolhe a alma
    Isso me ajuda a viver
    
    Hoje contei pras paredes
    Coisas do meu coração
    Passiei no tempo
    Caminhei nas horas
    Mais do que passo a paixão
    
    É um espelho sem razão
    Quer amor fique aqui?
    
    Meu peito agora dispara
    Vivo em constante alegria
    É o amor que está aqui
    
    Amor I love you
    Amor I love you
    Amor I love you
    Amor I love you
    
    Primo Basílio - Eça de Queiroz (1878)
    (é recitado por Arnaldo Antunes na música)
    
    " - Tinha suspirado
     Tinha beijado o papel devotamente
     Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades
     E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas
     Como um corpo ressequido que se estira num banho tépido
     Sentia um acréscimo de estima por si mesma
     E parecia-lhe que entrava enfim uma existência superiormente
    interessante
     Onde cada hora tinha o seu intuito diferente
     Cada passo conduzia um êxtase  
     E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações."
    
    Amor I love you
    Amor I love you
    Amor I love you
    Amor I love you

    Sem explicação (1)

    Tony Carreira - Sabes Onde Eu Estou
     Ricardo/Tony Carreira

    Eu já vi que vais mudar de vida 
    Por um novo amor me vais trocar
    P'ra mim não muda nada com tua saída 
    Posso te perder mas tu não perdes teu lugar
    Eu vou deixar tudo como estava 
    Minhas emoções ficam iguais
    Se o sonho que persegues 
    Um dia der em nada 
    E se precisares daquele amigo ou muito mais
    
    Refrão:
    Sabes onde eu estou 
    Se quiseres voltar 
    Seja por amor ou mesmo apenas pra chorar, 
    Sabes onde eu estou 
    E o que sou pra ti 
    Seja pelo que for que tu regresses para mim 
    Estou sempre aqui.
    
    Vejo que estás mesmo de partida 
    Por um novo amor eu sei que vais 
    Mas se acordares sozinha ou arrependida 
    E se precisares daquele amigo ou muito mais.
    
    Refrão:
    Sabes onde eu estou 
    Se quiseres voltar 
    Seja por amor ou mesmo apenas pra chorar
    Sabes onde eu estou 
    E o que sou pra ti 
    Seja pelo que for que tu regresses para mim 
    Estou sempre aqui.
    
    
    Toda a vida vou ficar 
    Tu podes mesmo não voltar 
    Mas eu nunca me vou
    Tu sabes onde eu estou. 
    
    Refrão:
    Sabes onde eu estou 
    Se quiseres voltar 
    Seja por amor ou mesmo apenas pra chorar
    Sabes onde eu estou 
    E o que sou pra ti 
    Seja pelo que for que tu regresses para mim
    Estou sempre aqui.
    
    Sempre aqui
    
    Sabes onde eu estou

    Verónica

    Minha querida
     
    Chorei muito no teu sofá. Mas também rimos como duas perdidas  noite dentro, Santa Catarina a baixo...
    Passamos muitas manhãs de sábado na feira da Nossa Senhora da Hora... atrás das malas nas tendas dos ciganos...  Aquele café no Magestic, tu tão chique... e eu com a camisola barroca da loja chinesa. 
    Agora que íamos poder passear as nossas pastas Lacoste juntas, tu passearás a tua pelas ruas de Paris a caminho da Universidade René Descartes, e eu passearei a minha pelo Porto a caminho do jornal.
    Fiquei tão feliz quando me convidaste para o meu jantar de aniversário na tua casa e me apareceste com aquela lazanha fabulosa... nós as duas a festejar os meus 29 anos, um dia antes do evento, apreciei muito esse teu gesto. Estava tão triste.
    É esse o teu dom: conseguiste trazer-me a alegria nos momentos mais negros. E não tem nada a ver com o facto de seres psicóloga, uma grande psicóloga, diga-se de passagem, mas por seres minha AMIGA.
    Foste uma das pessoas que escolhi para me ajudar a atravessar o Inferno.
    Vou seguir os teus conselhos à risca. TODOS eles.  Estás-te a rir? Vou, a sério!
    Aquelas jantaradas em minha casa, os episódios da Ally Mcbell no portátil e nós no sofá de superboc Tango no chão.
    Fico com a Ally como terapeuta na tua ausência. Terei de instalar a net em casa para organizar o triangulo Paris, Luxemburgo, Porto, ou o quadrado, se incluirmos Teruel.
    Quero que te divirtas. Que estudes.
    Tu mereces esta oportunidade que a vida te está a dar.
    Eu terei mais um destino, e tu terás mais um ponto de retorno.
    Um abraço forte, muito apertado.

    Trotil

    "O bagaço que é uma BOMBA!"
    July 18

    Sobre a depressão...

    Ainda não consigo ouvir-te dizer: a tua doença. Já li imensos livros sobre a depressão. Sei que é uma doença. Li testemunhos de pessoas que trocavam a depressão por um simples acidente de viação. Andei um tempo em que sinceramente achava que essas pessoas não estavam no seu juízo perfeito ao preferir uma dor física a uma psicológica. Mas hoje penso exactamente como elas. Há três dias que deixei de tomar os anti-depressivos, depois da necessária redução gradual do medicamento que os médicos ironicamente apelidam de "desmamar". E nestes dias tenho vindo a sentir a dependência causada por eles. Uma dependência necessária à cura, mas dificil de aceitar. Há nove dias que parei também um outro medicamento que tomava para dormir: o ansiolítico. E como resultado, tive dias em que dormi 2h, outros em que dormi 3h. Dias em que acordei de madrugada com o coração a bater como se tivesse acabado uma corrida. Em que o "estado de nervos" era tal que me atrapalhava a respiração. Ao ponto de ter tonturas. Mãos e pés dormentes. Um mal estar enorme. Como se nenhum sítio me servisse para estar, nem ninguém conseguisse me acalmar. Dei por mim a enviar-te mensagens às 5/6h da manhã. Dei comigo a correr para tua casa sem avisar. Precisei que a Verónica dormisse em minha casa. Precisei de dormir em casa dela. Precisei de beber SuperBoc Tango até me embebedar. Precisei de entrar no mar às 8h e de nadar. Precisei de chorar. Precisei de atirar um vaso com toda a força ao chão. Precisei de ver seis ou mais episódios da Ally Macbell seguidos. Precisei de ti. Dizes que tenho tendêndia a falar sempre no passado. Sinto saudades do passado em que nada disto se tinha ainda passado. Talvez seja uma razão. A depressão extermina a ideia de futuro. As pessoas trivializaram a palavra empregando-a à mínima tristeza, dizia-me C., ao telemóvel enquanto me dava conta de ter tido uma crise de pánico tão grave que a levou às urgências psiquiátricas de um hospital. Nada de surpreendente para mim, já estive nesse corredor. Já estive noutros corredores mais escuros do que esse. Pior que a tristeza, o choro fácil... apenas a raiva da perda de controle. E quanto mais racional a pessoa que entra em depressão, era (e aqui tenho mesmo de empregar o passado), mais dramático e angustiante se torna a constatação da total perda de domínio sobre si próprio. Mais avassaladores se tornam os consolos dos amigos. É doloroso ouvir dizer: anima-te; tens de reagir; tens de ultrapassar; não te podes entregar à tristeza. São conselhos cheios de boas intenções, mas perfeitamente inúteis e pior: a mim fizeram-me muitas vezes sentir raiva de quem mos oferecia de bandeja. Essa tendência que as pessoas têm de querer desvalorizar os problemas não resulta quando os problemas que queremos desvalorizar são os nossos. O "apoio especializado" dos médicos causa suspeitas. O "apoio não especializado" dos amigos torna-se muitas vezes um massacre. O isolamento, apenas uma margem de sobra para pensamentos suicidas. O convívio, apenas uma desculpa para o ignorar dos problemas. A depressão é muito grave não só pelos factores que a suscitaram, mas porque tem a capacidade de desencadear uma sucessão de problemas já resolvidos a seu tempo mas que reaparecem para nos por a duvidar das soluções que lhes foram dadas, envolvendo o depressivo num rodopiar de cepticismo, de insegurança, de insatisfação, de perpétuo reposicionamento, que levam ao desencadear de crises de identidade. Ainda sinto grande parte desses fenómenos. O meu "desmamar" acontece não pela cura, mas pela inevitabilidade do aparecimento de uma outra doença. É provável que depois de curada esta outra doença (sim, tem cura!) a opinião especializada da médica seja a retoma da medicação. Algo que não vou fazer. Por um simples motivo: não quero passar pelo que estou a passar outra vez. Não quero esta sensação de dependência tua, nem de ninguém. Quero voltar a ter controlo. De mim. Da minha vida. Esse é o maior desafio.

    Diário de uma vida doméstica

    7h - Acordo. 7h10 - Tomo um copo do chá de cidreira e lima que a Marta me aconselhou para os nervos. 7h20 - Está calor. meto-me na banheira para o habitual banho de água fria. Tenho o cilindro desligado há dias para poupar luz. 7h34 - Tento vestir o menos roupa possível sem que pareça estar a caminho da praia. Dispenso alguns acessórios inúteis: aneis, pulseiras, colares... Ponho as argolas que os meus avós me deram. Será que pareço uma Gina? 7h40 - Mudo de carteira. 7h50 - Mudo de roupa. 8h - Saio rápido de casa antes de me ver ao espelho e descobrir que vou muito destapada para ir trabalhar. 8h10 - Entro no café para tomar o pequeno-almoço. Peço uma rufadinha, menos conhecido como brioche, com manteiga, uma meia de leite e um copo de água. 8h40 - Meto os pés ao caminho do hospital para ir ter com a minha mãe. 9h - Chego ao hospital. Converso um bocado com a minha mãe que já está a fazer quimio desde as 8h30. 9h30 - Chego ao jornal a horas. 9h31 - Abro o Messenger e ponho o "La tortura" a tocar ininterruptamente no itunes. 9h32 - Descarrego o mail. 9h40 - Começo a escrever umas linhas desajeitadas sobre o que fiz até ao momento na esperança que a vontade de trabalhar tome conta de mim. 10h13 - Constato que a vontade não vem. Decido não esperar mais.
    July 17

    Uma tarde com os Coutos

    Cumpri o horário pela primeira vez em anos. 12h30 de Domingo, ensonada, ressacada, batia à porta dos meus pais para o habitual almoço de família. Ninguém me atendia. Telefono à minha mãe. - Onde estás? O meu pai estava a trabalhar, o meu irmão dormira em minha casa com a namorada, a minha mãe despachara a sogra e estava em casa do irmão. Ia almoçar com a família dela e eu tinha sobrado porque simplesmente não estava actualizada. Fiquei na merda. Mas então decidi ir bater à porta da Bira, a mãe do Pedro Miguel e fazer-me de convidada para o almoço deles. Não tinha muita fome, mas ao ver os panados bem fritos com o arroz de ervilhas e a salada de tomate, tive logo vontade de me sentar para nunca mais sair da mesa. Falamos. Em família, porque eles consideram-me como tal. O António, a Elvira, o Pedro Miguel e o Rui Sérgio. Quatro Coutos e um Lobo. Falamos das notas do Pedro Miguel, de política, dos problemas do condomínio, das obras que o António Couto está a fazer na sua casa. O pobre homem anda sozinho a por o chão e a pintar as paredes. Foi tão bom estar alí a almoçar tranquilamente sem que o assunto cancro, quimio, tratamentos, mais as zangas e discussões familiares me devastassem o apetite. Comi dois panados e meio. Um gelado de framboesa. E encontrei a felicidade naqueles pequenos gestos com que a família Couto me mimou durante a refeição. - Come mais panados Andreia, queres ameixas, come uma banada, come um gelado, come um bolinho, come um chocolate, diziam-me alternadamente o António e a Bira. - Come Andreia, repetia o Pedro Miguel, satisfeito de me ter alí só para ele, como há muito tempo não tinha... Fizemos desenhos, pintamos... - Andreia, queres ficar cá a dormir? - Não posso, mas quando vier de férias fazemos como daquela vez... vais lá dormir tu a minha casa, vamos fazer grafittis nas paredes, plasticina no chão... Os olhos do Pedro Miguel brilharam... - E quando tens férias? - Em Agosto. - Logo no dia 1? - Sim, meu amor... é logo no dia 1 e eu vou passar o mês todo contigo.