29 julio
Farto-me do passar dos dias. Cansam-me as horas tardias. Aborrecem-me os minutos demorados. Faço porque não quero que percebam que já não sou capaz. Este tédio sem respostas. Sinto o corpo moído da espera. Incapaz do movimento certo. No meu desconforto procuro algum sentido. Mas há muito que o absurdo tomou conta da minha vida. Não há margens. Não há parágrafos. Faltam-me os pontos finais. Restam apenas exclamações. Interrogações. Mudo de linha. Reescrevo a realidade para a assemelhar à ficção. Sucedem-se as páginas carregadas de ideias borratadas.
14 julio
Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece.
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.
Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido mas existem possibilidades.
Tínhamos a idéia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de idéia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia.
Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade.
Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho mas
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar.
Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada
Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo.
Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá
Uma grande letra para uma música dada a conhecer pela Cátia, essa Serena que me serena a alma lembrando-me simplesmente que ainda não a perdi.
12 julio
He's not my lover, he's just a boy who claims that I am the one
08 julio
Inocente o entusiasmo do Artur quando o avô lhe anuncia: "Vamos ao cemitério!" Artur fica eufórico. E repete enquanto corre pelo passeio. "Vamos ao cemitério com o regador!" O regador que a minha mãe lhe deu quando íamos ao cemitério "regar" a campa do avô velhinho, o seu bisavô. Agora Artur rega também a campa da minha mãe. Corre por entre as lápides de regador na mão. Sorridente. "Anda Andreia!" Sigo a passo tranquilo atrás dele. Aos pulos pede que abra a torneira e lhe encha o regador. "Vamos regar a tia Linda que ela está cheia de calor!", diz-me ele com pressa. Depois volta a correr até à campa dela. Despeja o regador sempre sorridente sempre aos pulos. "O meu menino!" Era assim que a minha mãe se referia ao Artur. O menino que corria para os braços dela e a enchia de beijos e lhe tirava o boné para ver a careca... "A tia Linda agora já tomou banho?", pergunta-me. Aceno-lhe que sim. Procuro sorrir para não chorar. Com o regador já vazio é tempo de outra das nossas actividades no cemitério. No chão, o regador transforma-se numa bola. "Xuta prima!" Começa a partida de futebol entre os jazigos. Tombamos algumas velas e pedimos desculpa aos mortos pelo incómodo. "Desculpe lá Dona Cândida, foi sem querer!" Artur ri-se e imita-me: "Foi sem querer!" Umas velhotas, que estão vivas, sentem-se incomodadas pela partida. Olham-me com reprovação. E eu sorrio-lhes. Artur marca-me um golo. Agarra o regador e festeja à minha volta. "Tia Linda marquei um golo à Andreia!" Aposto que a minha mãe abana a cabeça e pensa: "Que tolos, esta minha filha é pior que o menino!" De certo que nos acha piada. De certo que ri. E assim evito eu de chorar.
06 julio
Há um acidente de carro na estrada.
Há um rapaz no chão coberto de sangue.
Ninguém se aproxima dele pelo horror em que está.
Aproximo-me eu.
Olho-o nos olhos e digo-lhe que vai tudo ficar bem.
Ele diz-me que não.
Eu peço-lhe que acredite em DEUS.
Ele diz que vai morrer.
Eu digo que não. Que a ambulância vai chegar a tempo.
Ele diz que é tarde.
Peço-lhe que acredite em mim.
E desato a correr pela estrada fora.
Corro o mais que posso até a um hospital.
Procuro um médico que venha ao local do acidente.
Mas o hospital está vazio.
Continuo a correr pelos corredores.
Vejo uma médica.
É a Estrela.
Imploro-lhe que venha comigo.
Ela diz que não vale a pena.
Puxo-lhe o braço, grito-lhe que venha em nome de DEUS.
Ela acede.
Mas quando chegamos, já está lá a ambulância.
Vejo um saco preto numa maca.
O rapaz está morto.
Sinto uma miséria dentro de mim.
Falhou DEUS.
Falharam os médicos.
Falhei eu.
Acordo.
E a única coisa que penso é que eu devia ter corrido mais.
Quanto vale encontrar alguém que nos conhece? Augusto vivia na rua. Pedia junto ao jornal onde eu trabalhava. Conversávamos ao fim da tarde num banco de pedra do Jardim da Cordoaria.
Dizia que antes de me conhecer quase desaprendera a falar, tal eram longos os dias que passava sem contacto humano. Preferia companhia a alguns euros. Mas aceitou de bom grado 10 euros para se deixar filmar certa tarde para o video clip "Quem me leva os meus fantastmas", do Pedro Abrunhosa.
Gostava que lhe falasse dos meus problemas. Dizia que lhe lembravam a vida da qual se afastara.
Uma tarde em que passeavamos pelo Porto, perguntou-me como não tinha eu vergonha de ser vista com ele a andar pela rua. Devolvi-lhe a pergunta.
Vesti-o algumas vezes com as roupas que não serviam ao meu pai.
Um dia saía eu do jornal e tinha-o à minha espera. Barba desfeita. Banho tomado. Roupa limpa. Um leve cheiro a colónia de lavanda. Deu-me o braço, como lhe tinha contado que o meu avô me fazia, e levou-me ao café.
Disse-me que uma assistente social o tinha abordado. Deixava a rua para iniciar um tratamento no Hospital Conde Ferreira. Senti as lágrimas pelo rosto. Um egoísmo inexplicável que ele entendeu. Perguntou-me se não queria que ele fosse, disposto a não ir. Pedi-lhe que fosse, claro, que se tratasse das dependências que tinha. Pediu-me que não o fosse visitar ao hospital, como estava a querer fazer. Implorou-me que mantivesse a lucidez. E, fez-me prometer viver até quando nos encontrassemos de novo.
01 julio
Começa por ser um nó na garganta. Depois vai apertando.
Como se fosse corda em volta do pescoço.
Tento respirar como me ensinaste. Mas o ar está rarefeito.
Vou para a janela.
Não me basta o vento para encher os pulmões.
Apenas aviva a tua imagem ao meu lado.
A tua mão pousada na minha perna nos interválos das mudanças.
As janelas abertas.
A paisagem a fugir imperceptível.
- Atão mulher, ainda te falta o ar? O teu sorriso de sapo. A tua mão a deslizar pelo meu braço.
- Já passou a choradeira? O teu olhar inquieto nos meus olhos inchados.
- Melhorzinha? A tua preocupação a cobrir o meu embaraço.
- Logo posso cuidar de ti! As tuas promessas a ruborizar a minha face.
E a tua morte.
A saudade de te olhar a apertar este nó na garganta.
O ar irrespirável.
A tristeza da promessa não cumprida.
Vem pousar a tua mão na minha perna.
Ainda espero pelo deslizar dos teus dedos na minha pele.
Para poder voltar a respirar...