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August 31 Período de lutoSe ouço James Blunt é porque me apetece chorar até secar o saco lacrimal. Se fico em casa é porque não há mais sítio nenhum no mundo onde me apeteça estar. Se escrevo cartas é porque não tenho medo de parecer ridícula. Se mostro o meu sofrimento é porque quero um ombro e não recriminações. Se faço as malas é porque procuro um lugar seguro para me abrigar e não para me esconder. August 21 O choque telemobilísticoUm rapaz caminha de um lado para o outro na rua. Ouvido colado ao telemóvel. Ar de cansado.
- Olha, já nem tenho vontade de ir aí!
(Do outro lado adivinha-se uma namorada)
- Olha, já nem vou ter vontade de ir aí amanhã!
(Talvez um pedido final)
- Olha, já nem vou aí nunca mais! Adeus!
E desliga o telemóvel
Uma rapariga tira da carteira o telemóvel. Comprou-o apenas para poder mudar de rede e de número. Chora. Diz à melhor amiga que tem de ser. Que não pode continuar à espera que o ex-namorado lhe ligue a dizer que a ama. Chora.
A amiga consola-a: - Liga-lhe, diz-lhe o que sentes!
A rapariga não contém as lágrimas: - Já disse!! Já disse!! Já disse!! Estou farta de falar com ele ao telemóvel!!!
E explica à amiga que na noite anterior saíra de casa às 4 da manhã para telefonar ao ex-namorado de uma cabine, depois de ter ficado sem saldo. A amiga cheia de boas intenções insiste: - Manda-lhe uma sms!
A rapariga chora e chora. - Já mandei milhentas sms, esgotei os kolmis e ele nada, não me liga!
Um rapaz chega a casa. Tem o telemóvel desligado há três dias. Desligou-o depois de uma sms enviada à namorada onde acabava a relação. A mensagem fora vaga: - Sorry, período de luto! Não sei quanto tempo vai durar.
Depois partira para a aldeia, deixando o telemóvel pousado na mesinha de cabeceira. De volta, fitava-o alí quieto ainda onde o deixara. Uma ansiedade no peito. Se o ligasse sabia que teria de ler sms insultuosas ou mensagens de voice mail histéricas da namorada aturdida por tal comportamento. Se não ligasse nunca saberia qual a sua reacção, algo que no fundo ele queria saber... Duas horas passaram. Depois passaram mais quatro. Era já de fim da tarde quando ele ganhou coragem e marcou o PIN. Esperou pelo sinal de sms. Meia hora. Uma hora. Nada. Então ligou à namorada. O telemóvel dela estava desligado. Muda de vida"Muda de vida se tu não vives satisfeito,
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar...
Muda de vida se há vida em ti a latejar."
António Variações August 07 Situação de criseNão se trata de uma crise nirvanasiana género “I hate my self and I want to die”. O Cobain está morto. E desse tempo apenas recordo com estupefacção a fragilidade com que a vida acontecia. A indiferença com que o viver e o não viver eram sentidos. Dos 17 aos 29 a vida nem sempre teve a mesma intensidade. Os riscos foram-se atenuando. Ou talvez alternando com espaços cada vez mais amplos de segurança. A raiva foi esgotada ao som de Rage Against the Machine. A agressividade cedeu o lugar à astúcia. Os velhos deuses foram expulsos. Sangue novo correu no altar da consciência. Confiança. Determinação. Foram muitas as vitórias. Mais que as esperadas. Menos que as merecidas. Com a insatisfação a surgir desse ratio incontrolável. De tal forma que, por vezes, a vida quase estalou. Valeu alguma lucidez inata. Um amigo. A própria morte. Que ao contrário do apregoado pelo lirismo gótico é apenas um estado de putrefacção. Impossível de evitar. Possível de adiar. Ou de não precipitar.
A crise instalada nada tem a ver com a idade. É mais profunda. Angústia camuflada. Disto e daquilo. Ao ponto de ser esquecida. Como um tumor genético descoberto num exame de rotina. Surge agora. Avassaladora. Com ela os velhos deuses voltam para reclamar o seu altar. Prometem romper o entorpecimento. O cansaço. A frustração. A morte, todavia, já não engana com o seu cheiro a hortelã. Foi banida. Sem ajuda. Sem amigo. Por si só. Por ter sido desnudada do romantismo com que se cobria. Nunca a vida foi tão desejada ao olhar de uma sepultura. E por isso a angústia. Do saber como gastar o tempo que resta. Antes que o som da terra sobre o caixão se faça ouvir. August 04 MORRER DE Paixão"Querida Andreia, não tenho vontade de escrever, perdi a AP, e sem ela não consigo viver..." Eram estas as palavras de um Colaborador do jornal para justificar que, no lugar dos habituais 8 mil e tal caracteres, o seu texto deste mês apresentasse uns míseros 2 mil. Ao paginar, o Gráfico comentou: "Como conseguiu ele escrever tão pouco?" Então expliquei ao Gráfico que o nosso Colaborador tinha encontrado e perdido o amor da sua vida. O Grafico ficou enternecido. "Sou um romântico, e acho piada a estas pessoas que ainda acham que se morre de amor..." Há poucas. Eu sou uma delas. O nosso Gráfico é um deles. Paramos a correcção do jornal para falar de amor com a página do texto do Colaborador a cintilar no ecrã. "Hoje em dia ninguém tem tempo para a paixão. Ninguém se confessa tão enamorado ao ponto de achar a morte suplício menor perante o sofrimento com a ausência da pessoa que ama!" As pessoas dão-se umas às outras por pouco. Companhia. Amizade. Segurança. "Não queiras nada menos que sentir uma paixão avassaladora pela pessoa com quem andas!" Só isso merece a entrega. Menos que isso é nada. O nosso Colaborador está a morrer de paixão. Os que o rodeiam, não dirão, mas pensarão que é louco. Que naquela idade não se deveria deixar embarcar em devaneios poéticos, nem suspiros sofridos. Mas ele lá saberá a dor que tem no coração. Conseguirá arrancá-lo do peito? Talvez o guarde numa arca. Se sobreviver, será como todos. Os que seguem a vida. Se morrer, será um mártir. Para os românticos. Ou um tolo para os restantes. August 03 GI Jane LindaEstá cansada. "Como quando ainda não sabia o problema que tinha", explica sempre que se senta no sofá e suspira. Olha o chão. "É preciso dar um jeito nesta casa!" Sim, respondo. Também a minha casa precisa de um ou dois jeitos. Há loiça na banca de um jantar talvez não desta, mas da outra semana. Há roupa estendida no sofá. Limpa. Indecisões matinais sobre o que vestir. Suja. Suor e cheiro a tabaco. Canecas em cima da secretária, um copo em cima do portátil. Visitas? Vestígios de sucessivos pequenos-almoços tomados e não arrumados. De quando? A contar pela borra de café recequida no fundo, de há muito tempo. Os vasos murcharam. Calor. Falta de água. O grilo vive. Milagre. habituou-se à magra dieta e de uma folha de alface roubada ao esquecimento. Outro suspiro. Um erguer de sobrancelhas. "Vê se o arroz está cozido!" Sim. Está. Não tem fome. Mas vai fazer um esforço para comer. Não tem ânimo. Mas farei um esforço para que tenha. "Devias escrever sobre esta experiência por que estás a passar!" Sim. Vou escrevendo. "Devias escrever um livro!" Não. Isso não. Já me basta ter de viver esta história. Não quero escrever para a contar. O telemóvel desligado. "Ficaste sem bateria?" Não, não fiquei. Desliguei-o porque me queria isolar. "Não podes fazer isso, não devias estar sozinha!" Talvez. "Sabias que podes tomar antiestamínicos em vez dos ansiolíticos para dormir? faz o mesmo efeito sonífero, mas tem cuidado, não abuses porque agravam as depressões..." Não sabia, mas agradeço a informação. Não sou alérgica a quase nada. Só ao pó. Uma vez deram-me umas máscaras para poder estar na Biblioteca Municipal a mexer em poeirentos volumes de jornais antigos. Olhavam-me com medo do eventual contágio. Em contrapartida, tinha livre movimento pela sala. Todos me cediam a vez nos pedidos de novos volumes. Ninguém se sentava ao meu lado para que pudesse estar à vontade. Que eu saiba não contagiei ninguém com a alergia. Mas não me esqueço dos olhares. De pena. Tal como os que ela observa sobre si. Ironizo. "És a GI Jane Linda, até tens os peitorais do tamanho dos da Demi Moore!" Captain Jack SparrowCom a pirataria na alma... "Leva tudo o que puderes, não devolvas nada!"
"E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder..."
Homem do Leme, Xutos & Pontapés
"Eu queria ter amarra nesse cais
para quando o mar ameaça a minha proa
E queria vencer todos os vendavais
que se erguem quando o diabo se assoa..."
Não me mintas, Rui Veloso |
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