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Se amanhã os telemóveis estiverem desligados, fugi!Quando a felicidade atinge os limites do intolerável fugir torna-se o mais lógico. Aceito a tristeza como inevitável e não lhe resisto. Mais insuportável o peso da felicidade. Imagino um fim súbito e fatal. E fugo apenas afim de o evitar. Ainda que ele não venha a acontecer. Acabo por o precipitar. No desespero de o prevenir. Não sei se serei capaz de te encontrar amanhã. Estou inclinada a desligar os telemóveis. September 12 O meu problemaO meu problema é já ter visto filmes a mais. Há cenas que se repetem. Cortes que reconheço. Panorâmicas que quero evitar. September 11 O chão que ela pisaFoi acabado de esfregar. O chão que ela pisa não tem letreiro a avisar: Perigo de Escorregar! O chão que ela pisa é também sujo. E ela gosta de andar descalça. Ás vezes só a gordura pegajosa lhe prende os pés ao chão. Por isso ela solta-se. Então, o chão que ela pisa deixa de o ser. Mas o chão que ela pisa é único. Feito de mosaicos geométricos multicolores. É no chão que pisa que ela se ajoelha e reza. Num chão frio e húmido. O chão que ela pisa é sagrado. E ela nem sempre se sente digna de o ter por baixo dos pés.
September 08 Jamaica leaves - IIFoto de Natália Martins
23 de Agosto - Conversa de engate
São 21h na Jamaica, em Portugal é dia 24. Vuptei-me. A noite é quente e abafada. Procuro um refúgio a caminho do quarto. Mas sou desviada pelo som de tambores. Sento-me na berma de um jardim. Minutos depois alguém me chama. "Miss, are you ok?" É o segurança. Explico que estava apenas a curtir o som. Pergunto-lhe de onde vem. Diz-me que é de uns bares alí ao lado. E prontamente se oferece para me levar até lá. Diz-me que tamb+em toca numa banda e que um dia gostava de tocar para mim. Dava uma vontade de rir, mas contenho-me. Conheço o estilo da conversa de algum lado. Mas da última vez que a ouvi o interlocutor era de outro continente. Fico a pensar que a conversa de engate é universal. Digo-lhe isso mesmo. Que ele tem de inovar a conversa se quiser engatar turístas. Ele ri-se desmascarado. Ainda assim reage um tanto ou quanto paternalista. Pergunta-me quem me deu a conversa de engate. Não respondo. Diz-me que quem quer que tenha sido foi um palhaço. Rio mais uma vez. Até na Jamaica há quem perceba bem de árabes. Bebi um bocado de mais. Pinacoladas. De borla. Por isso peço ao segurança que me ajude a encontrar o quarto. September 07 O meu chefeOntem morreu José Paulo Serralheiro. O meu chefe. Conhecemo-nos numa entrevista em que me candidatava ao lugar de jornalista, na Página da Educação, publicação de que ele era director. Cheguei atrasada 1 hora. Esqueci-me do currículo. Então a entrevista foi feita à base de conversa. "Troca de ideias", como ele lhe chamou. Sobre política, educação, sociedade e cultura. Os temas chave abordados no jornal. Interrompemos a conversa à custa do almoço. E foi marcada nova entrevista, para eu apresentar o currículo esquecido na primeira.
Dois dias depois entrava eu, novamente no escritório dele. Com o currículo, mas novamente atrasada. Quando me viu, olhou para o relógio e disse: "Você tem um problema com a pontualidade!" Fiquei um bocado atrapalhada. Começamos a nova entrevista. Desta vez falamos do que eu tinha andado a fazer na universidade e no mundo laboral até ao momento. Causei boa impressão. Ele também.
A dada altura comecei-me a enterrar. Dizia eu que não tinha problemas nenhuns em cumprir ordens desde que reconhece legitimidade nas chefias para mandar. Recordo o arregalar de olhos dele. Pensei que tinha perdido o "emprego". Mas não. Anos mais tarde dizia-me ele que foi exactamente aí que decidiu arriscar a minha contratação. Foram seis anos em que diariamente troquei ideias com a pessoa mais inteligente com quem trabalhei.
José Paulo Serralheiro era um chefe com legitimidade. Falava com profundo conhecimento de causa. Nunca vi ninguém tão produtivo, ao ponto de mesmo com cancro ter virado a página à Página da Educação, transformando-a de jornal a revista. Tinha um profundo tacto de justiça. Era implacável com as falhas. Mas tolerante com erros. E tinha a capacidade extraordinária de fazer as coisas acontecerem.
Aprendi muito sobre educação com ele. Sobretudo deu-me muitas lições de vida. Dizia que mais valia um sapateiro a assobiar do que um médico mal disposto. Logo a mim, que assobiava muitas vezes sem me dar conta. Mesmo a trabalhar.
No final da entrevista, depois de muita conversa e sem me dar nenhuma pista sobre se me ia contratar ou não, olhou-me com uma cara de sarcasmo e disse: "Arranje os horários dos autocarros!" September 01 Jamaica leaves - IFoto de Natália Martins
23 de Agosto - Missão secreta
[Bob Marley, the guy who helped me] |
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